+ um ebook pra melhorar o teu dia. Quem não pode com mandinga, não carrega patuá - Um olhar psicanalítico sobre forças visíveis e invisíveis.
INTRODUÇÃO
Há expressões populares que atravessam gerações sem pedir licença.
Elas não pedem explicação — se impõem.
“Quem não pode com mandinga, não carrega patuá” é uma dessas frases que carregam mais do que palavras: carregam história, crença, medo e sabedoria.
Mas este livro não começa aqui.
Ele nasce de uma continuidade.
Em O Princípio da Sua Parte, foi apresentado um ponto fundamental:
cada sujeito tem uma participação inegociável naquilo que vive, sente e repete.
Não há acaso absoluto.
Há implicação.
Agora avançamos.
Se antes a pergunta era:
Qual é a sua parte nisso?
Agora ela muda de nível:
Você suporta lidar com aquilo que a sua parte revela?
Porque reconhecer é um movimento.
Sustentar é outro.
E é nesse ponto que muita gente trava.
Quando se fala em mandinga, fala-se daquilo que escapa, atravessa e acontece sem pedir autorização.
Quando se fala em patuá, fala-se do que o sujeito cria para se proteger — ou acreditar que está protegido.
Traduzindo:
a mandinga é o que insiste
o patuá é o que você usa para não lidar com isso
Sob um olhar psicanalítico, a mandinga se aproxima daquilo que não está sob controle consciente:
impulsos
repetições
conflitos internos
O patuá aparece como tentativa de contenção:
justificativas
crenças
defesas
Este livro propõe algo simples — e incômodo:
não basta entender,
não basta reconhecer,
não basta assumir.
É preciso sustentar.
Porque, quando o sujeito não sustenta, faz o que sempre fez:
terceiriza
espiritualiza
ou cria seus próprios patuás.
Quem não pode com a própria verdade inventa proteção contra aquilo que nunca enfrentou.
Este não é um livro sobre crenças externas.
É um livro sobre o que o sujeito faz quando começa a perceber que:
não é totalmente vítima
não está totalmente no controle
e existe algo dentro dele que insiste em agir.
A isso, muitos chamam de mandinga.
A forma como cada um lida com isso… é o seu patuá.
O QUE VOCÊ VAI ENCONTRAR NESTE LIVRO
Ao longo dos próximos capítulos, você não vai encontrar respostas prontas.
Vai encontrar confrontos simples — e diretos.
Você vai perceber:
como a repetição se disfarça de destino
como a mente protege você… até prender você
como escolhas silenciosas moldam histórias
como criamos patuás para evitar aquilo que já percebemos
E, principalmente:
onde começa — e onde interrompemos — nossa própria mudança.
Este não é um livro para quem quer explicação.
É para quem aceita se observar.
Porque, ao final, a questão não será mais entender o que acontece com você.
Mas decidir:
o que fazer com aquilo que já não consegue mais deixar de ver.
CAPÍTULO 1 — QUEM AGUENTA O QUE CARREGA?
Tem gente que quer resposta.
Mas não quer consequência.
Quer entender por que a vida se repete, mas evita tocar no que faz ela repetir.
Porque entender não muda ninguém.
O que muda é sustentar o que foi entendido.
E isso exige mais do que vontade.
Exige disposição para se ver sem maquiagem.
Quem não pode com mandinga, não carrega patuá.
Traduzindo:
não adianta querer proteção se você não suporta enfrentar aquilo que te ameaça.
Agora vamos falar direto.
Sua Parte
É aquilo que você faz — mesmo quando acha que não fez.
É o jeito silencioso com que entra nos próprios problemas.
Você não percebe na hora.
Mas depois reconhece.
E, muitas vezes… ignora.
Mandinga
É o que acontece dentro de você e parece vir de fora.
“não sei por que fiz isso”
“foi mais forte que eu”
“sempre acontece comigo”
É quando algo em você age sem pedir licença.
E você assiste… como se não tivesse participado.
Patuá
É o que você cria para não encarar isso.
desculpas
crenças
culpar os outros
justificar o que se repete
É o alívio rápido.
Que custa caro depois.
O problema não é a mandinga.
É fingir que o patuá resolve.
Na vida real isso aparece assim:
Você entra em um relacionamento cheio de expectativa.
Ignora sinais.
Tolera o que não deveria.
Depois diz:
“De novo isso aconteceu comigo.”
Ou então:
Você muda de trabalho.
Acredita que agora será diferente.
Mas, pouco tempo depois, o mesmo incômodo aparece.
Não igual.
Mas parecido o suficiente.
Isso não é azar.
Também não é coincidência.
É repetição.
E repetição não pede explicação.
Pede reconhecimento.
O primeiro passo não é se proteger.
É reconhecer:
qual é a sua parte nisso?
Porque depois disso não existe conforto completo.
Você pode ignorar.
Mas já sabe.
Ou encara…
ou continua criando formas de não encarar.
E a pergunta que fica é simples — e incômoda:
o que você já percebeu…
mas continua fingindo que não é com você?
CAPÍTULO 2 — POR ISSO NÃO PROVOQUE, POIS NEM TUDO QUE TE ACONTECE VEM DE FORA
Quando algo incomoda, a primeira reação costuma ser procurar culpados.
foi o outro
foi a sorte
foi o momento
foi a vida
Raramente:
fui eu nisso aqui.
E não é por maldade.
É proteção.
Assumir a própria parte dói.
Porque desmonta uma posição confortável:
a de quem sofre… sem participar.
Quando você assume, perde uma desculpa.
E ganha um problema maior:
ter que fazer algo diferente.
Então a mente faz um ajuste fino.
Quase elegante.
exagera o externo
diminui o interno
reorganiza a história
E, no final…
você parece inocente.
É aqui que a mandinga cresce.
Não como magia.
Mas como aquilo que você não quer ver.
O ciclo é simples:
você repete,
não reconhece,
sofre,
culpa algo fora.
Resultado:
parece mandinga.
E quanto mais evita olhar,
mais forte isso parece.
Quando o incômodo aumenta, surge a vontade de resolver.
Mas resolver de verdade exige mudança.
E mudança custa.
Então o sujeito escolhe atalhos.
muda de ambiente
troca de pessoas
começa de novo
E por um tempo…
funciona.
Mas o padrão não foi tocado.
Então ele volta.
Quem não encara o que repete passa a vida trocando de cenário.
“Só encontro gente complicada.”
Mas não vê:
o que escolhe
o que aceita
o que ignora
Troca a pessoa.
E encontra o mesmo problema.
Não é que nada venha de fora.
Vem.
Mas isso nunca explica tudo.
A pergunta que muda o jogo é outra:
o que, em mim, se conecta com isso que continua acontecendo?
Sem essa pergunta, a vida vira repetição.
E aí sim…
parece mandinga.
Todo mundo quer paz.
Mas pouca gente quer o caminho até ela.
Porque esse caminho exige:
reconhecer
sustentar
abrir mão de ilusões
Talvez a pergunta que fique não seja mais:
por que isso continua acontecendo?
Talvez seja outra:
o que você continua chamando de acaso…
que, no fundo, já reconhece como padrão?
CAPÍTULO 3 — O MUNDO MUDA QUANDO A BORBOLETA BATE AS ASAS
Você já percebeu.
Já viu que se repete.
Já entendeu que, de algum jeito, existe uma participação sua nisso.
Mas mesmo assim… não muda.
E não é por falta de vontade.
Também não é por falta de entendimento.
Então por quê?
Porque mudar não é apenas trocar de lugar.
Mudar é perder uma forma de ser
antes de saber exatamente qual virá depois.
E isso assusta.
A mudança tem um detalhe que quase ninguém fala:
ela tira você de um lugar conhecido…
e coloca você num território onde ainda não sabe quem é.
É por isso que tanta gente prefere permanecer.
Mesmo reclamando.
Mesmo sofrendo.
Mesmo sabendo que não está bem.
Porque o conhecido, por pior que seja,
ainda oferece alguma sensação de controle.
Já o novo…
não promete nada.
É fácil dizer:
“tenho medo de mudar”
Mas talvez isso não seja totalmente verdade.
O medo raramente é da mudança.
É daquilo que ela revela.
Porque quando você muda:
relações se reposicionam
verdades aparecem
escolhas ficam claras
desculpas perdem força
E, principalmente:
você deixa de poder fingir que não sabe.
Ficar parado também tem custo.
Mas é um custo conhecido.
Mudar cobra outro preço:
incerteza
desconforto
exposição
responsabilidade
E nem todo mundo aceita pagar isso.
Então o sujeito faz algo curioso.
Não fica completamente parado.
Faz movimentos.
Mas não o suficiente.
Pensa mais.
Analisa mais.
Promete mais.
Começa coisas… e não sustenta.
Dá sensação de movimento.
Mas continua no mesmo lugar.
Quando a mudança já foi percebida como necessária,
surge conflito.
Uma parte quer ir.
Outra segura.
Esse choque produz:
ansiedade
angústia
tensão constante
E, para aliviar isso…
entra o velho conhecido.
Se a mandinga é o incômodo que empurra,
o patuá é aquilo que você usa para permanecer.
Ele aparece de várias formas:
“agora não é o momento”
“preciso pensar melhor”
“não tenho certeza ainda”
“vou esperar mais um pouco”
Nada disso é necessariamente mentira.
Mas também não é avanço.
É contenção.
Você percebe.
Não muda.
Fica ansioso.
Cria alívio.
Permanece.
E depois diz:
“não sei o que está acontecendo comigo”
Só não quer sustentar.
Mudar não resolve tudo.
Mas não mudar mantém aquilo que já não funciona.
Talvez você não esteja perdido.
Talvez esteja parado…
no exato ponto onde sabe que precisa atravessar.
E talvez a pergunta agora seja outra:
o que você sabe que precisa mudar…
mas continua negociando consigo mesmo para não fazer?
CAPÍTULO 4 — QUEM TEM MEDO DOS MOINHOS DE VENTO?
Dizem que Dom Quixote enlouqueceu.
Talvez.
Mas talvez apenas tenha feito o que o ser humano sempre fez:
transformar a realidade em algo suportável.
Dom Quixote via gigantes.
O mundo via moinhos de vento.
E entre uma coisa e outra existia algo profundamente humano:
a necessidade de acreditar.
Seu fiel escudeiro, Sancho Pança, tentava trazê-lo de volta ao chão.
Mostrava:
a estrada
o cansaço
a poeira
a dureza do real
Mas a fantasia tinha mais brilho.
E brilho quase sempre seduz mais rápido que realidade.
Talvez seja por isso que essa história nunca envelheceu.
Porque o homem continua lutando contra os próprios moinhos.
Só mudaram os nomes.
Hoje os gigantes atendem por:
validação
desempenho
produtividade excessiva
personagens virtuais
felicidade obrigatória
sucesso imediato
O sujeito acorda cansado.
Mas continua correndo.
Não sabe exatamente para onde.
Mas corre.
E quanto mais corre,
menos escuta a própria vida.
A fantasia moderna não usa armaduras.
Usa filtros.
Não cavalga pelas estradas.
Desliza pela tela do celular.
E continua prometendo a mesma coisa:
“Se continuar, finalmente vai se sentir suficiente.”
Mas não sente.
Porque nenhuma fantasia sustenta por muito tempo aquilo que a realidade insiste em mostrar.
Existe uma frase popularmente atribuída ao universo quixotesco:
“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.”
Independentemente da origem exata, a frase sobrevive porque revela algo importante:
o ser humano nem sempre acredita racionalmente em certas coisas…
mas continua agindo como se acreditasse.
É aqui que mandinga e patuá retornam.
A mandinga nunca foi apenas magia.
Muitas vezes ela aparece como:
o medo que insiste
a repetição que retorna
a ansiedade que não explica
o vazio que reaparece depois das conquistas
E o patuá?
É aquilo que o sujeito carrega para aliviar o desconforto de existir.
Antigamente:
amuletos
rezas
objetos de proteção
Hoje:
excesso de desempenho
personagens digitais
frases motivacionais
ocupação constante
distração sem pausa
Mudam os símbolos.
A necessidade permanece.
Porque o ser humano continua procurando algo que o proteja daquilo que sente.
Talvez esteja aí o ponto delicado.
Dom Quixote precisava acreditar nos gigantes para sustentar sua narrativa.
O homem contemporâneo também.
A diferença é que hoje a realidade chega mais rápido.
As contas chegam.
O corpo cansa.
A ansiedade aparece.
As relações se desgastam.
O silêncio incomoda.
Talvez o problema nunca tenha sido lutar contra moinhos de vento.
Talvez seja esquecer que eram vento…
e transformar a própria vida numa batalha contra aquilo que nunca existiu da forma como parecia.
E talvez a pergunta agora seja outra:
talvez os moinhos nunca tenham sido gigantes.
Talvez a questão sempre tenha sido descobrir qual é a sua parte na fantasia que insiste em lhes dar força.
CAPÍTULO 5 — QUEM FALA MUITO DÁ BOM DIA A CAVALO
Antes de entender o que o homem dizia,
talvez fosse preciso perceber sobre qual cavalo sua linguagem estava montada.
Depois dos gigantes imaginários, dos moinhos e das fantasias de Dom Quixote, existe um personagem que quase ninguém percebe:
Rocinante.
Velho.
Magro.
Silencioso.
Quase sempre esquecido.
Mas havia um detalhe importante:
sem Rocinante,
não existia jornada.
Era ele quem atravessava:
poeira
estradas
cansaço
derrotas
fantasias
Enquanto Dom Quixote sonhava,
era Rocinante quem suportava o peso real da estrada.
Talvez a linguagem seja assim.
Nem sempre bonita.
Nem sempre elegante.
Mas continua conduzindo o sujeito pela vida.
Existe um velho ditado:
“Quem fala muito dá bom dia a cavalo.”
Durante muito tempo muita gente acreditou que isso significava apenas excesso de fala.
Talvez não.
Talvez o detalhe nunca tenha sido o “bom dia”.
Mas o cavalo.
Porque existem pessoas que falam.
E existem pessoas que aprenderam a cavalgar a linguagem.
Quem domina a linguagem raramente atravessa o mundo a pé.
O mundo de cada pessoa costuma ser do tamanho das palavras que consegue compreender.
Quem não encontra linguagem para:
o que sente
o que deseja
o que sofre
o que pensa
acaba vivendo dentro das palavras dos outros.
E talvez esteja aí uma das maiores formas de domínio humano.
Não pela força.
Não pela violência.
Mas pela capacidade de organizar a realidade através da linguagem.
Quem domina as palavras:
influencia emoções
conduz narrativas
cria verdades
movimenta multidões
Religiões fizeram isso.
Governos fizeram isso.
Empresas fazem isso.
As redes sociais fazem isso diariamente.
Porque linguagem nunca foi apenas comunicação.
Também é poder.
Jacques Lacan percebeu algo importante:
o sujeito é atravessado pela linguagem.
Talvez isso explique muita coisa.
A forma como alguém fala:
revela o que pensa
esconde o que teme
denuncia o que falta
protege aquilo que não consegue sustentar
Até o silêncio fala.
Existe uma diferença enorme entre:
falar
e
possuir linguagem.
Há pessoas que falam o tempo inteiro…
mas apenas repetem discursos prontos.
Outras, com poucas palavras, deslocam mundos.
Porque linguagem não é quantidade.
É direção.
Talvez seja por isso que tanta gente viva cansada sem perceber.
Passam o dia:
repetindo frases prontas
compartilhando opiniões emprestadas
defendendo ideias que nunca elaboraram
tentando parecer algo que ainda não compreenderam em si mesmas
É como se estivessem montadas em cavalos conduzidos por outros cavaleiros.
Sem perceber, a vida vai sendo conduzida por:
tendências
narrativas
medos coletivos
desejos emprestados
Talvez Rocinante fosse mais importante do que parecia.
Porque silenciosamente atravessava todas as fantasias de Dom Quixote.
A linguagem faz algo parecido.
Ela acompanha:
crenças
afetos
relações
dores
escolhas
Mesmo quando ninguém percebe…
continua conduzindo.
Talvez o problema nunca tenha sido falar demais.
Talvez o problema seja não perceber quem segura as rédeas da linguagem enquanto você fala.
E talvez a pergunta agora seja outra:
talvez você não escolha todas as palavras que atravessam sua vida.
Mas continua sendo sua parte decidir quais delas irá transformar em caminho.
CAPÍTULO 6 — A DIVINA COMÉDIA ACONTECE DENTRO DE NÓS
Durante muito tempo ensinaram que inferno, purgatório e paraíso eram lugares distantes.
Separados da Terra.
Separados da vida.
Separados do homem.
Talvez não.
Talvez o ser humano atravesse todos eles diariamente enquanto tenta suportar a própria existência.
E talvez o mais inquietante seja perceber que, muitas vezes, somos participantes ativos dos infernos, purgatórios e paraísos uns dos outros.
Jean-Paul Sartre escreveu certa vez:
“o inferno são os outros.”
A frase atravessou décadas porque toca algo profundamente humano.
O olhar do outro:
julga
aprisiona
limita
define
fere
Muitas vezes não sofremos apenas pelo que somos.
Sofremos também pelo lugar onde fomos colocados dentro das expectativas e da linguagem de outras pessoas.
Mas talvez a frase possa ir além.
Porque, se os outros podem ser inferno,
também podem ser:
travessia
reconstrução
aprendizado
paraíso possível
Existem pessoas que despertam:
medo
culpa
insegurança
ressentimento
Outras despertam:
coragem
mudança
verdade
elaboração
E algumas devolvem algo que o sujeito havia perdido:
a possibilidade de existir sem precisar lutar o tempo inteiro.
Talvez seja por isso que convivência humana nunca seja neutra.
Uma palavra pode aliviar um inferno.
Outra pode inaugurá-lo.
Um silêncio pode proteger.
Outro pode destruir lentamente alguém por dentro.
Talvez a Divina Comédia nunca tenha sido apenas uma travessia espiritual.
Talvez também seja metáfora sofisticada sobre a experiência humana.
Porque existem dias em que o sujeito:
desce aos próprios infernos
habita longos purgatórios emocionais
e encontra pequenos paraísos em coisas simples
Um abraço.
Uma escuta.
Uma palavra.
Um reencontro consigo.
A questão talvez nunca tenha sido:
quem controla tudo?
Talvez os antigos já soubessem que o homem carregava infernos internos muito antes da Psicanálise tentar organizá-los.
Na mitologia, o submundo sempre apareceu como metáfora para aquilo que permanece oculto.
Séculos depois, escritores, filósofos e analistas começaram a nomear o mesmo fenômeno com linguagens diferentes.
Alguns chamaram de:
mitologia
espiritualidade
existência
inconsciente
Talvez todos estivessem tentando explicar algo parecido.
Porque o sujeito ama…
e sofre.
Deseja…
e culpa-se.
Constrói…
e destrói.
Aproxima-se…
e fere.
E talvez seja exatamente aí que Sua Parte aparece.
Porque, se existem forças:
emocionais
sociais
culturais
inconscientes
também existe algum espaço onde o sujeito participa daquilo que alimenta.
Talvez não sejamos donos absolutos da própria mente.
Mas também não somos completamente inocentes diante daquilo que produzimos.
Talvez a verdadeira pergunta seja outra:
qual é a nossa parte nos infernos que alimentamos,
nos purgatórios que prolongamos
e nos paraísos que tantas vezes destruímos sem perceber?
CAPÍTULO 7 — ONDE ME ESPETAM, FICO
Talvez a infância tenha sido o primeiro consultório da alma.
Antes das teses, diagnósticos e tratados, já existiam fábulas, apólogos e objetos falando sobre dores humanas com simplicidade brutal.
O que hoje a psicanálise explica com conceitos complexos,
ontem uma cigarra cantava numa árvore,
uma linha discutia com um alfinete,
e panelas tentavam sobreviver ao inevitável choque da convivência.
Durante muito tempo essas histórias pareceram apenas metáforas morais destinadas às crianças.
Talvez não.
Talvez fossem pequenas cirurgias simbólicas sobre o comportamento humano.
O que muda entre o adulto intelectualizado e a criança diante da cartilha talvez seja apenas o vocabulário.
A angústia continua parecida.
Talvez o nome disso seja olhar metonímico.
Quase nunca sofremos apenas pelo fato concreto.
Sofremos pelo que ele encosta dentro de nós.
Um silêncio pode carregar abandono.
Um olhar pode carregar humilhação.
Um elogio pode esconder cobrança.
A alma humana vive de deslocamentos.
A cigarra nunca foi apenas uma cigarra.
Ela carrega o drama eterno entre utilidade e sensibilidade.
A formiga constrói o inverno.
A cigarra sustenta a primavera invisível da alma.
O mundo moderno transformou descanso em culpa.
Contemplação em desperdício.
Criamos uma civilização eficiente.
E cansada.
Produzimos muito.
Cantamos pouco.
Talvez por isso tanta gente esteja sobrevivendo sem necessariamente estar vivendo.
A humanidade consegue suportar fome por algum tempo.
Mas enlouquece sem música.
Já o apólogo da linha e do alfinete talvez seja uma das maiores radiografias sociais já escritas.
A linha atravessa tecido.
Suporta tensão.
Une pedaços.
Sustenta estruturas sem reconhecimento.
O alfinete apenas espeta.
Mas termina orgulhoso:
“Onde me espetam, fico.”
A frase é pequena.
Mas talvez a vaidade humana inteira caiba dentro dela.
Há pessoas que confundem imobilidade com importância.
Permanecem espetadas em:
cargos
títulos
personagens
ideologias
aparências
Enquanto isso, as linhas do mundo seguem invisíveis.
Mães.
Trabalhadores.
Anônimos.
Afetos silenciosos.
Gente que costura vidas sem aparecer no retrato.
Talvez nunca tenhamos vivido época tão apaixonada por alfinetes.
Quanto às panelas, a modernidade radicalizou o problema.
Todos parecem cercados por “não me toques”.
Qualquer discordância vira ofensa.
Qualquer atrito produz estilhaços emocionais.
Nunca estivemos tão conectados.
E tão frágeis.
Talvez essas histórias tenham sobrevivido justamente porque nunca falaram sobre objetos.
Sempre falaram sobre nós.
Talvez seja este o verdadeiro papel do apólogo:
permitir que o homem se enxergue sem perceber que está sendo observado.
EPÍLOGO — O FEITIÇO A FAVOR DO FEITICEIRO
Houve um tempo em que os homens acreditavam que certos objetos protegiam a alma.
Carregavam:
patuás no bolso
orações no peito
amuletos no pescoço
símbolos pendurados no corpo
Talvez funcionassem.
Talvez não.
Mas o mundo mudou.
Hoje os feitiços já não vivem escondidos em rituais.
Aprenderam a falar através das telas.
Entram pelas propagandas.
Pelas promessas de felicidade instantânea.
Pelos discursos prontos.
Pelos algoritmos.
Pelas comparações silenciosas.
Nunca fomos tão enfeitiçados.
E talvez o mais perigoso seja isto:
os novos feitiços não exigem crença.
Basta exposição contínua.
A repetição faz o resto.
O sujeito moderno já não precisa procurar mandingas.
As mandingas o encontram primeiro.
Por isso antigos patuás perderam força.
Não porque deixaram de possuir beleza.
Mas porque nenhum objeto externo consegue proteger integralmente uma mente atravessada diariamente por discursos que reorganizam:
afetos
medos
desejos
identidades
A batalha mudou de lugar.
O novo patuá precisa nascer dentro.
Na consciência.
Na capacidade de sustentar silêncio.
Na coragem de pensar sem terceirizar a própria alma.
Na habilidade de reconhecer quais ideias fortalecem…
e quais colonizam por dentro.
Talvez esta seja a verdadeira travessia contemporânea:
construir defesas psíquicas sem endurecer o coração.
Porque ninguém sai ileso deste tempo.
Todos somos atravessados.
Todos somos influenciados.
Todos confundimos, em algum momento:
personagem com identidade
desejo com carência
aparência com valor
A diferença está em quem percebe.
Há pessoas que passam a vida inteira sendo conduzidas pelos feitiços do mundo sem suspeitar.
Outras constroem lentamente um centro interno capaz de suportar o caos sem dissolver completamente dentro dele.
Talvez seja exatamente aí que nasce a Psicanálise da Mudança.
Não como promessa de pureza.
Nem como ausência de conflito.
Mas como possibilidade de consciência.
A mudança verdadeira não acontece quando o homem elimina todas as feridas.
Acontece quando deixa de oferecer a própria alma como moradia para tudo aquilo que tenta possuí-lo.
No fim, amadurecer talvez seja isto:
entender que o mundo continuará lançando feitiços diariamente…
mas existe diferença enorme entre ser atravessado pela vida
e ser completamente dominado por ela.
Sua Parte
Há pessoas que passam tantos anos carregando mosaicos quebrados dentro de si,
que acabam chamando de personalidade aquilo que nasceu apenas como defesa.
Mas nenhum mosaico se completa sozinho.
Existe uma parte que pertence:
ao acaso
às perdas
ao tempo
aos encontros
às dores
E existe Sua Parte.
A parte que decide.
A parte que percebe.
A parte que interrompe repetições.
A parte que escolhe quais feitiços continuarão entrando…
e quais já não encontrarão morada.
Porque quando o sujeito assume Sua Parte,
algo começa silenciosamente a se reorganizar.
E aquilo que um dia foi apenas sobrevivência…
aos poucos deixa de ser prisão
e começa, finalmente,
a se transformar em existência.
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