Metáfora do Avião - Uma viagem pelas asas da psicanálise


Você pode até jogar uma pedra em um avião. Se ele estiver parado no aeroporto, é possível acertá-lo. Mas se estiver voando, não há pedra que o alcance. Essa imagem simples diz algo importante sobre a vida humana.

Quando estamos parados — presos às mesmas queixas, aos mesmos conflitos, às mesmas repetições — tornamo-nos alvos fáceis. Alvos de críticas, de frustrações, de ressentimentos e, muitas vezes, das próprias pedras que nós mesmos arremessamos contra os outros. E também é muito fácil ocupar o lugar da vítima. A vida cotidiana está cheia dessa dinâmica: pessoas atirando pedras umas nas outras e, ao mesmo tempo, reclamando das pedradas que recebem.

Em muitos momentos, até mesmo o discurso psicológico e psicanalítico corre o risco de permanecer apenas nesse território da lamentação. Fala-se de sofrimento, de sintomas, de recalques, de conflitos do inconsciente. Utilizam-se conceitos importantes — como inconsciente, ego e superego — formulados por Sigmund Freud para compreender a complexidade da vida psíquica.

Mas, muitas vezes, no meio desse vocabulário técnico, algo essencial acaba ficando esquecido:a parte que cabe a cada sujeito na própria história. É aqui que entra aquilo que podemos chamar de Princípio da Sua Parte. Ele não nega o inconsciente. Não nega nem os conflitos e muito menos  as dores que fazem parte da vida humana. Mas acrescenta algo decisivo: nenhuma transformação acontece enquanto o sujeito permanece apenas no lugar de quem recebe ou arremessa pedras.

A mudança começa quando cada um decide fazer a sua parte.

Quando isso acontece, algo interessante se torna possível. Se cada sujeito cuida da sua parte, sua própria vida se organiza de outra maneira. E quando duas ou mais pessoas assumem essa posição, algo novo pode ser construído entre elas. A parte de cada um passa a estar preparada para receber a parte do outro.E assim, pouco a pouco, deixam de viver numa guerra de pedradas e começam a construir algo mais sólido e mais vivo.

É nesse momento que a metáfora do avião revela seu sentido mais profundo.

Quando alguém assume a própria implicação na vida, ele deixa de permanecer parado no aeroporto das repetições. Começa a ganhar altitude. E quando a vida ganha altitude, as pedras já não alcançam mais.

O céu passa a ser outro lugar.

Um lugar onde as comparações perdem sentido, porque cada avião tem sua rota, sua velocidade e seu destino. Comparar trajetórias humanas como se fossem idênticas é esquecer que cada um voa em condições diferentes. Talvez por isso toda comparação seja uma armadilha: quem compara quase sempre perde de vista aquilo que realmente importa — o próprio caminho.

Quando o Princípio da Sua Parte entra em ação, a posição do sujeito muda.

Ele deixa de ser apenas alguém que reage às circunstâncias e passa a ser alguém que participa da construção da própria vida. E então algo novo aparece no horizonte: não mais um campo de pedradas, mas um céu aberto.

Um céu de brigadeiro, como dizem os aviadores.

E nesse céu, a vida deixa de ser apenas um lugar de repetição e passa a ser novamente um espaço de travessia, descoberta e criação. Porque, no final das contas, ninguém pode voar no lugar de outro. Mas cada um pode decidir quando começar a levantar voo.

https://josecarlosdemiranda.blogspot.com/2026/03/o-que-e-psicanalise-da-mudanca.html

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