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📖 O mar aberto: Uma metáfora sobre as transições da vida (Capítulo 4)

O ônibus anda. Sem pressa. Sem explicação. Sento na janela. Olho pra fora. A rodoviária já ficou pra trás. — Pronto… — digo — agora foi. Silêncio. Jacques Lacan aparece no banco ao lado: — Foi… o quê? — Eu saí. — Sair não é chegar. Respiro fundo. Não gosto dessa resposta. — Mas já é alguma coisa, né? Sigmund Freud , algumas fileiras atrás: — É um começo. — Então agora melhora? Ele não responde. A estrada é longa. Monótona. Sem novidade. — Estranho… — digo — achei que ia ser diferente. Byung-Chul Han responde, olhando pela janela: — Você mudou de lugar. Não de estrutura. Isso pesa. — Então quer dizer que nada mudou? Christian Dunker entra: — Mudou. Você não está mais no mesmo ponto. — Mas parece igual. — Parece… porque você veio junto. Silêncio. Uma mulher no banco da frente suspira: — Eu já fiz isso antes… sair, mudar, tentar… e volto pro mesmo lugar. ...

📖 CAPÍTULO 1 Naquela mesa, só falta você. _ A Mesa Posta da Existência: Você é Convidado ou Apenas Observador?

  Num fim de tarde, numa loja de conveniência, sentamos para conversar. Café, barulho de geladeira, gente entrando e saindo. Nada de divã. Nada de consultório. Só uma mesa — e alguma coisa que ainda não tinha nome. Olho para Sigmund Freud e digo: — Conheço um sujeito que não se cansa de fazer a mesma coisa. Sempre volta ao mesmo lugar. O que você diz disso? Ele não se apressa. — A repetição não é fraqueza — responde. — É estrutura. Fico em silêncio por um instante. — Então não é falta de força? Ele sorri, como quem já viu aquilo muitas vezes. — Não. É o modo como algo insiste. Jacques Lacan , impaciente, entra na conversa: — E você acha que ele se dá conta disso? Respondo: — Acho que não. Parece automático. Lacan inclina o corpo: — Então não basta explicar. É preciso que ele se implique. Antes que eu responda, Byung-Chul Han observa, em tom baixo: — Hoje tudo é explicado. E quanto mais se explica, menos se move. — Então explicação virou abrigo...

O que é Psicanálise da Mudança?

Responsabilidade e transformação na experiência psicanalítica Durante muito tempo, aprendemos a explicar o sofrimento humano olhando para fora: a infância, os pais, a sociedade, os traumas, as circunstâncias da vida. Nada disso é falso. Mas também não é toda a verdade. A Psicanálise da Mudança surge como um ponto de inflexão nessa leitura. Ela não nega a história — mas desloca o foco para algo decisivo: a implicação do sujeito naquilo que vive. Na experiência clínica, algo se torna evidente: a vida de alguém começa a mudar não quando encontra todas as respostas, mas quando passa a se implicar nas próprias perguntas. O que propõe a Psicanálise da Mudança? A proposta é simples — e ao mesmo tempo exigente. Não se trata de apagar o passado, nem de encontrar culpados definitivos. Trata-se de reconhecer que, mesmo diante do que nos atravessa, há sempre uma parte que nos cabe. Essa “parte” não é culpa. É responsabilidade subjetiva. E é justamente aí que a mudança se torna possível....

A metáfora da corrida do revezamento

Dois corredores. Um vem em velocidade, carregando algo que não pode parar. O outro já está em movimento — não espera parado. Eles não se olham por muito tempo. Não há explicação. Não há conversa. Só um gesto em preparação. O bastão se aproxima. O tempo encurta. Tudo acontece em segundos. O bastão não pode cair. Mas também não pode ser retido. Existe um ponto exato em que ele deixa de ser de um e ainda não é do outro. É nesse intervalo que tudo se decide. A mão que vem não pode hesitar. A mão que recebe não pode duvidar. Porque ninguém corre pelo outro. E ninguém pode receber por você. Se o gesto falha, não há corrida. Se o gesto acontece, algo continua — mas em outro corpo. A vida opera assim. Há coisas que chegam até você — histórias, marcas, repetições. Elas vêm em movimento. Você não escolhe que venham. Mas há um ponto em que algo se decide: o que você faz quando isso chega. Recusar não interrompe. Só desloca a repetição. Segurar como antes também não resolve. Só prolonga. Ma...

Manifesto do Princípio da Sua Parte

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  Durante muito tempo, o sofrimento foi explicado. Nomeado. Organizado. Justificado. E quanto mais se explicava, mais a vida permanecia no mesmo lugar. Porque explicação não atravessa. No máximo, contorna. Existe um ponto — preciso, quase imperceptível — em que compreender deixa de ser movimento e passa a ser adiamento. É aí que tudo se decide. Não no que te aconteceu. Mas no que você faz com isso. É aqui que surge o Princípio da Sua Parte: não como ideia, não como conselho, mas como corte. Enquanto a sua parte não é assumida, o outro te prende. Mesmo ausente. Mesmo em silêncio. Mesmo no passado. Tudo gira em torno dele. Tudo retorna ao mesmo lugar. Mas quando a sua parte é assumida, a lgo se desfaz. Não no mundo. Mas na amarra. E, de repente, há espaço. Espaço entre você e o que te atravessa. Espaço entre você e o outro. Espaço para que algo não precise se repetir. É nesse intervalo que a vida reaparece, Não como solução...

Metáfora do Avião - Uma viagem pelas asas da psicanálise

Você pode até jogar uma pedra em um avião. Se ele estiver parado no aeroporto, é possível acertá-lo. Mas se estiver voando, não há pedra que o alcance. Essa imagem simples diz algo importante sobre a vida humana. Quando estamos parados — presos às mesmas queixas, aos mesmos conflitos, às mesmas repetições — tornamo-nos alvos fáceis. Alvos de críticas, de frustrações, de ressentimentos e, muitas vezes, das próprias pedras que nós mesmos arremessamos contra os outros.  E também é muito fácil ocupar o lugar da vítima.  A vida cotidiana está cheia dessa dinâmica: pessoas atirando pedras umas nas outras e, ao mesmo tempo, reclamando das pedradas que recebem. Em muitos momentos, até mesmo o discurso psicológico e psicanalítico corre o risco de permanecer apenas nesse território da lamentação. Fala-se de sofrimento, de sintomas, de recalques, de conflitos do inconsciente. Utilizam-se conceitos importantes — como inconsciente, ego e superego — formulados por Sigmund Freud para compre...