A Nave dos Divergentes: O Sujeito entre o Vazio do Ateísmo e o Grito dos Dogmas



A Nave dos Divergentes: O Sujeito entre o Vazio do Ateísmo e o Grito dos Dogmas

[Nota aos passageiros: Este ensaio abdica das amarras da pontuação tradicional em homenagem à fluidez de José Saramago. Aqui, o ritmo é o seu próprio fôlego e a leitura, um convite ao fluxo da subjetividade que se nega ao ponto final... e corre o risco de continuar.]

Vivemos um tempo de placas tectônicas empíricas ou aristotélicas disformes se chocando entre o sagrado e o profano e de um lado a partir de 2020 o Tratado de Ateologia de Michel Onfray e Os Delírios de Dawkins de Richard Dawkins começam a gravitar em bibliotecas mentais da sociedade europeia e dão início a voos mais longos atravessando o oceano e já fazendo pouso em terras americanas trazendo da Europa um deserto de sentido onde a razão é a única bússola e o céu é um teto vazio e acreditem ou não abanados pelos ramos das palmeiras tropicais no Brasil já se faz sentir pelos arautos evangélicos brasileiros em polvorosa pelos gritos nos altares que tentam erguer muros de dogmas contra o que chamam de onda da perdição mas enquanto os dois lados gritam quem cuida do passageiro dessa nave abençoada ou não o ateísmo moderno acredita que basta decretar a Morte de Deus para ser livre mas como alertou Friedrich Nietzsche matar o ídolo não apaga a sombra que ele projeta na caverna o homem que se diz ateu muitas vezes continua escravo de novos mestres como o consumo a performance ou a vitimização e Sigmund Freud chamaria isso de recusa a crescer pois o ateísmo europeu oferece o desmame mas não ensina a andar e a religião oferece o colo mas impede o passo onde fica então a autonomia do Sujeito para nivelar esse jogo a Psicanálise convoca o herói mitológico Orestes que diante do destino trágico e das fúrias que o perseguiam não pôde culpar os deuses nem o acaso e é nesse turbilhão de silêncios gritantes que invocamos a herança de José Saramago o ateu que encontrou o sagrado no humano e que nos ensinou a voar sem as balizas dos pontos e das vírgulas porque na análise como na vida a verdade não faz pausas para respirar ela avança e nos atropela e exige que a gente sustente o olhar diante do espelho que racha e mesmo sob o risco de cair o desejo insiste e persiste como bem pontuou Jean-Paul Sartre ao desenvolver o personagem em sua peça de teatro de 1943 ele estava condenado a ser livre e nesse ponto o ateísmo e a religião falham da mesma forma ambos tentam tirar o peso da caneta da mão do homem o ateu diz que é o DNA ou o acaso e o religioso diz que é o diabo ou a providência mas a verdadeira descoberta marcante não está em provar se o céu está habitado ou deserto mas em aceitar o peso da própria pedra como o Sísifo de Camus o sujeito moderno empurra sua existência montanha acima todos os dias o nivelamento do jogo acontece aqui se você é ateu a pedra é sua responsabilidade porque não há ninguém para carregá-la por você e se você tem fé a pedra é sua responsabilidade porque o livre-arbítrio exige que você seja o autor do seu esforço Kierkegaard diria que a fé real é um salto solitário e a Psicanálise diz que a cura é um encontro solitário com a própria falta no fim a Responsabilidade Subjetiva é a única ponte segura sobre o abismo do niilismo e o pântano do fundamentalismo a onda europeia pode até desembarcar em nossas praias e os arautos podem continuar seus alardes mas a nave só voa se o sujeito assumir o manche a Psicanálise da Mudança não oferece um porto seguro de certezas mas o vigor de quem sabe que seja no silêncio de Onfray ou no brado do templo a vida só ganha prumo quando assumimos a autoria da nossa própria história intervindo com o bisturi da verdade para perguntar qual é a sua parte no nó que te aperta e nesse oceano de palavras sem fim o desejo corre o risco de continuar

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