Tecnologias contemporâneas e desenvolvimento local sustentável


José Carlos de Miranda[1]
Lamounier Erthal Villela[2]
Basta termos clareza de que as mudanças não acontecerão pela onipotência dos nossos pensamentos. É fundamental criar meios para alcançar essa mudança. Marina Silva, 2010.
No começo toda mudança é um atalho. Miranda, 2012.

Resumo: este artigo propõe, em principio, uma investigação teórica das possibilidades de fomentar um desenvolvimento local mais sustentável através do fortalecimento de redes sociais e sua inserção progressiva nos processos político-administrativos locais, no âmbito da agricultura familiar. Na seqüência, e considerando as condições sociais e políticas, o texto discute as possibilidades e dilemas do uso das novas tecnologias de informação e comunicação para revigorar processos de coordenação social em seu território e para revitalizar a participação comunitária na gestão pública cidadã. Por fim, discute-se uma nova utilização de uma ferramenta tecnológica visando explorar de maneira efetiva a opção comunitária para promover o desenvolvimento sustentável na emergente sociedade em rede.
Palavras-chave: agricultura familiar, sustentabilidade, telefonia móvel
Abstract: this article proposes, in principle, a theoretical investigation of the possibilities of promoting a more sustainable local development through the strengthening of social networks and their progressive incorporation into local political and administrative processes within the family farm. In the sequence, and considering the social and political conditions, the paper discusses the possibilities and dilemmas of the use of new information and communication technologies to strengthen processes of social coordination in its territory and to revitalize community involvement in managing public citizen. Finally, we discuss a new use of a technological tool to attempt to explore the communitarian option to promote sustainable development in the emerging network society.

Keywords: family farming, sustainability, mobile phone.




Introdução:

O objetivo deste artigo é identificar e discutir algumas questões relevantes sobre a formação dos agricultores familiares para o desenvolvimento sustentável. A perspectiva em que nos colocamos é a da comunicação e nosso foco são os processos de intervenção em uma nova ruralidade. Que é possível um desenvolvimento econômico sustentável é o nosso pressuposto. Com base neste, discutimos diferentes conceitos de sustentabilidade e destacamos o papel das tecnologias contemporâneas na construção e socialização dialógicas do conhecimento, entre agricultores familiares. A inserção dos agricultores familiares no universo das tecnologias da informação e comunicação - com a finalidade de minimizar as distâncias que separam as instituições responsáveis pelas políticas públicas e esses agricultores - é o que defendemos neste texto. 
A discussão em torno do desenvolvimento rural sustentável vem ganhando espaço cada vez maior no cenário acadêmico e político. Esse assunto não se restringe somente às questões de conceito, mas também e principalmente aos fatores que potencializam as práticas sustentáveis. Entender o desenvolvimento é, antes de tudo, compreender que este não está associado apenas ao crescimento econômico, mas acima de tudo à melhoria da qualidade de vida dos sujeitos, ao bem comum e ao meio ambiente em que eles estão inseridos. De acordo com Petitinga (s/d),

O aspecto econômico implica em aumento da renda e riqueza, além das condições dignas de trabalho. A partir do momento em que existe um trabalho digno e este trabalho gera riqueza, ele tende a contribuir para a melhoria das oportunidades sociais. Do mesmo modo, a problemática ambiental não pode ser dissociada da social. [...] O desgaste ambiental pode não interferir diretamente a geração atual, mas pode comprometer sobremaneira as próximas gerações (p.2).

A crescente crise ambiental e agrária que o mundo assiste é consequência de um modelo adotado pelas economias capitalistas que privilegiam as práticas produtivas, dissociadas de estratégias de conservação de recursos naturais. Vivemos na modernidade, definida e caracterizada por alguns pesquisadores, pela cultura do excesso, do sempre mais, da exacerbação do consumo, do individualismo e do modo de vida intenso e urgente. Vivemos em um mundo de contrastes, que tem um bilhão de famélicos, sofrendo a iminência da falta de água doce e o excesso de resíduos de diferentes procedências, cuja destinação é ainda ignorada.
Na contemporaneidade, viver é uma aventura complexa. Em virtude disso, estamos nos inviabilizando como espécie, num processo irreversível e alarmante de autodestruição. Em face desse quadro, Hawken et al. (1999) ressaltam que em se mantendo os padrões atuais de uso e degradação do meio ambiente, há de restar muito pouco, no final deste século.
Ao longo dos últimos anos, vem crescendo a quantidade e a qualidade da consciência ambiental no mundo. Se as pessoas passaram a adotar hábitos menos agressivos em relação ao meio ambiente, algumas empresas incorporaram o conceito de sustentabilidade, usando-o com frequência, seja no campo puramente retórico, seja em intervenções efetivas para conservar o espaço onde estão inseridos. Outros empreendimentos, por sua vez, assumiram de fato um compromisso com o mundo: não só repensam seus processos de produção de bens, serviços e valores, como também se preocupam com o futuro, por meio da disseminação da consciência de conservação e sustentabilidade.

Discursos sobre sustentabilidade

A sustentabilidade, na perspectiva do meio ambiente é um fator estratégico para a sobrevivência das espécies. Além disso, é mais que um princípio de gestão ou uma nova onda de conceitos abstratos: representa um conjunto de valores e práticas que deve ser incorporados ao posicionamento estratégico das pessoas para definir posturas, permear relações e orientar escolhas. Só depois se espera que esteja presente nos discursos proferidos pelos porta-vozes (CEBDS, 2009).
Os conceitos de sustentabilidade já eram discutidos nas universidades americanas, na década de 1950[3]. Ao longo dos anos seguintes até o final dos anos de 1980, houve um aprofundamento não só do conceito de sustentabilidade, mas de desenvolvimento sustentável. A urgência da introdução de práticas sustentáveis no dia a dia da humanidade também passou a ser percebida a partir de então. Em 1987, a Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento conceituou desenvolvimento sustentável.
De acordo com esse conceito, desenvolvimento sustentável é aquele “capaz de permitir a satisfação das necessidades da geração presente sem comprometer a satisfação das necessidades e a sobrevivência das gerações futuras” [...]. Sustentabilidade, portanto, é condição de sobrevivência do planeta, do homem e de seus empreendimentos (ALMEIDA, 2007), na medida em que se configura como ponto de intersecção entre os negócios e os interesses da sociedade e do planeta. De acordo com Constanza, Daly, Bartholomew (1991, p. 19):

La sostenibilidad es una relación entre los sistemas económicos humanos dinámicos y los sistemas ecológicos más grandes, dinámicos, pero con cambios más lentos, en la cual la vida humana pueda continuar indefinidamente, los seres humanos puedan prosperar, y las culturas humanas se puedan desarrollar. Sin embargo, en dicha relación, los efectos de las actividades humanas permanecen dentro de límites, de manera de no destruir la diversidad, complejidad y funciones del sistema ecológico de soporte de la vida.

Maslow (1964) já defendia que o sustentável deveria contemplar a satisfação contínua das carências humanas, compreendidas como necessidade de um nível social e cultural mais elevado. Segurança, liberdade, educação, emprego e recreação devem, portanto, ser considerados no conceito de sustentabilidade.
No Brasil, a década de 1990 foi marcada por um forte movimento das instituições públicas e privadas, na busca da conscientização do papel social dessas instituições sobre a questão ambiental, considerada como

[...] um conjunto de deficiências na reprodução do sistema, o qual se origina na indisponibilidade ou escassez de elementos do processo produtivo advindos da natureza, tais como matérias-primas e energia e seus desdobramentos ideopoliticos. [...] trata-se da incapacidade do planeta de prover indefinidamente, os recursos necessários à reprodução da vida, em condições históricas e sociais balizadas pelo alto nível de produção e consumo (SILVA, 2010, p. 67).

Um importante marco no direcionamento desse processo de conscientização, na década de 1990, foi a realização, no Rio de Janeiro, da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Eco-92.  Nesse encontro foram debatidos e elaborados documentos fundamentais, com a participação empresarial: a Agenda 21 e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima e a Convenção Sobre Diversidade Biológica. A partir de então, com o objetivo de discutir e aplicar o conceito de sustentabilidade, surgiram importantes organizações, como Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável - CEBDS, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas – Gife.
Dez anos após o encontro do Rio de Janeiro, foi realizada a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável, em Johannesburgo, África do Sul. Ali, perante representantes do mundo inteiro, ficou claro que as instituições, como os Estados e as ONGs, são partes do processo de conscientização para a sustentabilidade, o que revela o poder e a importância de todos esses atores sociais no desafio de fazer da sustentabilidade um ponto de pauta de suas agendas.
Por muito tempo, e ainda hoje, algumas instituições vêm preferindo trabalhar os conceitos de sustentabilidade, sob a ótica da responsabilidade social. De acordo com o Instituto Ethos (2010, s/p), esta

[...] pode ser compreendida como a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da instituição com todos os públicos com os quais elas se relacionam e pelo estabelecimento de metas instituições com o desenvolvimento da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as futuras gerações, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.

Outras instituições, por sua vez, seguem a lógica da conservação ambiental, bem como do gerenciamento dos impactos ambientais, nos processos produtivos. A dinâmica do sustentável, aplicada aos negócios das instituições e das pessoas, nos mais diversos setores, potencializa o conceito de sustentabilidade. Esse conceito envolve aspectos cruciais referentes à manutenção, continuidade, sobrevivência e reputação do empreendimento.
Embora usados como sinônimos, desenvolvimento sustentável difere do conceito de sustentabilidade. Segundo Moles et al. (2008), sustentabilidade é uma “situação futura desejável”, enquanto desenvolvimento sustentável é o “processo pelo qual nos movemos do presente status quo para o futuro desejável”: “[...]Desarrollarse significa expandir o realizar las potencialidades [...] a un estado más pleno, mayor o mejor” (DALY, 1991. p. 14). A sustentabilidade está voltada para uma condição desejável e necessita do desenvolvimento como processo para alcançá-la, tendo em perspectiva a melhoria da qualidade de vida, mas sem implicar aumento da quantidade de recursos necessários para tal. Como política de obtenção de resultados em longo prazo:

[...] o desenvolvimento sustentável é um processo de transformação no qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspirações humanas (CMMAD, 1991. p. 49).

As contínuas transformações da sociedade, do individuo e da coletividade comprometem a sustentabilidade. Esse comprometimento decorre das mudanças dos objetivos individuais, pela transformação do coletivo, e dos fatores que afetam a dinâmica da própria sociedade: as dimensões espacial, social, ambiental, cultural e econômica. A dimensão espacial é uma das primeiras questões do estudo do desenvolvimento sustentável. Trata-se do espaço de análise, no qual devem ser definidos os atores e recursos referentes ao processo de desenvolvimento.

Essa delimitação depende dos objetivos da análise e da própria dinâmica da região em discussão, posto que algumas vezes o corte analítico pode ser expresso pela divisão política, enquanto as dinâmicas econômica social, cultural e ambiental demonstram realidades completamente diferentes [...]. (SILVA, 2010, p. 29).

A percepção do espaço analítico visa à dinâmica regional, a fim de que se possam definir os objetivos e recursos existentes em uma região e refletir sobre a interação com os demais meios. O espaço de abrangência é delimitado justamente pela interação e integração da comunidade local. Os objetivos dessa comunidade serão definidos por ela mesma, tendo em vista seus próprios recursos e a influência da sociedade mais ampla, avaliada como meio e não como fim.
Pensar a dimensão espacial implica ter em consideração as questões sociais, econômicas e culturais que delimitam os objetivos da sociedade naquele espaço. A ótica econômica e ambiental e os recursos para a consecução dos objetivos também devem estar em foco. Se ocorrem mudanças na dinâmica dessas dimensões, a abrangência espacial pode ser alterada, na medida em que as inter-relações e as variáveis se alteram.
A dimensão social diz respeito a temas referentes à interação dos indivíduos e à situação da condição de vida da sociedade. A interação dos indivíduos envolve o capital social, entendendo este como “valor obtido em uma determinada região, a partir da interação existente naquela sociedade” (SILVA, 2010, p. 31).

Um alto capital social pode viabilizar projetos que economicamente seriam inviáveis em outro local, em razão das externalidades possíveis, provenientes da sociedade local. Esse capital é acumulado historicamente pela confiança e objetivos comuns dos indivíduos em um determinado local. (SILVA, 2010, p. 31).

A condição de vida, um dos principais tópicos do debate na dimensão da sustentabilidade social, tem como eixo central a discussão da pobreza e o crescimento populacional. Considera os recursos ambientais e econômicos - incluso neles o capital natural – escassos. Além disso, implica o incremento contínuo da sociedade, fator sempre responsável pela estagnação de seu processo de desenvolvimento e crise generalizada. 
Em face disso, ações para garantir o uso mínimo de recursos de forma individual são necessárias, mas não suficientes: “[...] mais que garantir medidas de distribuições de recursos, dever-se-ia distribuir de forma equitativas os recursos”. (SILVA, 2010, p. 31). Ainda segundo o autor, a dimensão social é influenciada e afeta a dimensão econômica: uma das principais formas e fontes de inter-relacionamento da sociedade concretiza-se pelas transações econômicas. 
Sociedade implica associação de pessoas com um objetivo comum, seja cultural, econômico e etc.: “[...] as dimensões cultural e econômica estão intimamente relacionadas com a formação da base social e, dessa forma, com a dimensão social”. (SILVA, 2010, p. 31). Na medida em que pode ser motivo de agregação ou desagregação da sociedade, a questão ambiental – ponto de convergência de objetivos - também pode ser considerada. A interação dos indivíduos e a constituição de uma dinâmica social resultam, principalmente, de questões econômicas e culturais, delimitadas em um determinado espaço e tempo.
A dimensão ambiental reflete um novo capital para o sistema capitalista: o capital natural. Esse capital permite redimensionar o conceito de desenvolvimento para a ótica sustentável. O artigo 3, da Lei n. 6.938, de 31/08/1981, assim define meio ambiente: “Conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química, biológica, o que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. É inegável a preocupação em conservar o meio ambiente. As instituições formais expressas em leis e na Constituição de 1988 são responsáveis por essa conservação. Para isso, deve promover o desenvolvimento econômico-social, em harmonia com o meio ambiente, o que significa exploração equilibrada dos recursos naturais necessários ao bem-estar da sociedade.  A dimensão ambiental interage com as dimensões econômica e social, limitando-as com vistas ao desenvolvimento sustentável.
A cultura – conjunto das experiências humanas de uma determinada sociedade – alimenta-se de um processo de aprendizagem social contínuo, que implica a construção de princípios e valores que podem estar preocupados com o desenvolvimento sustentável de uma sociedade.    O processo contínuo de aprendizagem social e troca de experiências na sociedade, ao longo do tempo, transforma a cultura: “[...] a percepção dos objetivos comuns e do que se espera da sustentabilidade se altera também historicamente”. (SILVA, 2010, p. 33). Nesse processo, o Estado e suas diferentes instituições têm papel preponderante.
Todas as dimensões que interferem nos valores da sociedade afetam a dimensão cultural. As razões são as mais diversas: evitar a reedição de problemas indesejáveis no futuro; amadurecimento social e busca de novos rumos e, ainda, a vivência de um presente marcado por questionamentos de valores, que pode ter origem individual, coletiva, econômica, social, ambiental ou espacial (SILVA, 2010).
A dimensão econômica, a mais discutida no sistema capitalista, parte do principio de que o capital é a mola propulsora das relações sociais: “[...] as relações por meio das transações econômicas são de substancial importância para o desenvolvimento da sociedade”. (SILVA, 2010, p. 33). Preocupar-se com a dimensão econômica implica estar preocupado com três questões: como?; para quem?; o que produzir?. A primeira questão – como produzir? – ganhou relevância com o discurso ambientalista e a percepção dos principais agentes econômicos: os recursos, cada vez mais escassos, impõem limites ao crescimento contínuo da economia e reorienta o desenvolvimento de novas tecnologias e formas de produção. 
Esse questionamento envolve duas outras questões: a otimização dos recursos e a tentativa de maximizar os resultados dos benefícios em relação aos custos: “[...] a dimensão econômica se inter-relaciona com a sociedade (dimensão social e cultural) tanto em termos de recursos (humanos) existentes quanto dos desejos expressos pelos consumidores e novos objetivos individuais [...]”. (SILVA, 2010, p. 34). As dimensões ambiental e espacial, na visão econômica neoclássica, são entendidas como fontes de recursos. Por isso, devem ser consideradas sempre que se pretende transformar recursos em produtos. As regras do jogo do mercado devem influenciar essas inter-relações, com vistas a garantir o desenvolvimento sustentável da sociedade.
Em resumo: a dimensão espacial diz respeito à relação entre os atores e as potencialidades materiais e intelectuais do meio onde eles se encontram inseridos. A dimensão social se refere à percepção que se tem da forma de interação dos indivíduos com o contexto em que vivem e suas possibilidades de atuação para preservá-lo ou modificá-lo. A dimensão ambiental - ao contrário do que se pode pensar - trata o meio ambiente não como valor em si, mas sim como possibilidade de novos investimentos e lucros. Logo, os recursos naturais são encarados como potencialidades que garantem a permanência dos processos produtivos capitalistas. A dimensão econômica, aspecto mais discutido pelo capitalismo, em função de seus objetivos, considera o capital como suporte das relações sociais. Todas essas dimensões afetam, direta ou indiretamente, a dimensão cultural, influenciando a maneira como os sujeitos se percebem no contexto em que vivem, o que redimensiona sua maneira de pensar, agir e produzir.
No caso da agricultura familiar, os discursos institucionais sobre sustentabilidade chegam aos atores, por meio do processo comunicacional unidirecional, que recorre, principalmente, a dois canais: a televisão aberta e o rádio. Esse processo, apoiado por esses canais, reorienta a produção, por intermédio da transferência de um conhecimento plasmado sem ter em consideração a cultura dos atores a quem se destina. Isso significa que o conhecimento transmitido unilateralmente pela mídia não é construído a partir da realidade dos atores por ela afetados.

A incorporação do discurso da sustentabilidade na comunicação rural

O alheiamento dos atores do processo de construção do conhecimento a eles unilateralmente comunicado tem a ver com a própria lógica desse processo. Os avanços da ciência orientam as políticas institucionais. Estas abastecem o sistema de comunicação com idéias fragmentadas e terminologias esvaziadas de seu conteúdo original. Os canais de comunicação, por sua vez, elaboram seus discursos a partir dos significantes apresentados pelas políticas públicas, amalgamados pela ideologia que permeia essas políticas.
Esse discurso, veiculado principalmente pela televisão aberta e pelo rádio, conforme já referimos acima, contém as orientações que os governos pretendem sejam assimiladas pelos agricultores familiares. Essas orientações ganham objetividade, ignorando os conhecimentos empíricos dos sujeitos, construídos a partir de sua experiência sensível.  Esse fato implica uma consequência: a baixa capacidade de intervenção dos conhecimentos veiculados pelos meios de comunicação na realidade concreta dos sujeitos. 
Para potencializar a capacidade de intervenção dos conhecimentos produzidos pela ciência, recortados pelas políticas públicas e agendados pelos meios de comunicação, faz-se necessário reestruturar o modelo de comunicação estabelecido pelas instituições públicas cujas políticas estão voltadas para os agricultores familiares. Essa reestruturação implica aperfeiçoamento no processo comunicacional, para superar a dicotomia entre conhecimento sensível - conhecimento decorrente da experiência - e conhecimento científico. 
O conhecimento sensível, fruto da atividade dos sentidos, é a primeira forma de conhecimento humano. Por meio dele, entramos em contato com a materialidade do mundo. O agricultor familiar, em sua grande maioria, maneja-se no mundo, tendo como bússola o fruto da atividade dos sentidos – conhecimento empírico – como a percepção de cores, sons, imagens e lembranças. O objeto do conhecimento sensível são as coisas materiais. Logo, conhecer significa ver, ouvir, provar, exalar e apalpar. Enfim, conhecer é sentir. Quanto às lembranças, elas são responsáveis não só pela utilização desse tipo de conhecimento pelos agricultores familiares, mas também por transmiti-lo às gerações futuras, influenciando sua vida, particularmente no que diz respeito aos mecanismos de produção.
O conhecimento científico é a forma de conhecimento da realidade distinta por ser racional, sistemática, exata e verificável.  Os métodos de verificação, fundamentados na metodologia científica, são a origem desse conhecimento, ao mesmo tempo, objetivo, analítico, além de ater-se aos fatos e transcendê-los. Trata-se, portanto, de um modo de conhecer que exige mais do que o saber adquirido na chave de tentativa-erro-repetição, característica do conhecimento empírico. Logo, constitui-se um novo modo de apreender as coisas. Agora, não mais como mera ocorrência fortuita, mas a partir da relação entre essas ocorrências (efeitos) e suas causas, tendo sempre em perspectiva as leis que as regem.
Os agricultores familiares, mesmo aqueles detentores do saber adquirido por meio da tentativa-erro-repetição, podem tornar-se, também, agentes orientados pelos conhecimentos baseados na metodologia científica, sem, contudo, prescindir de seu conhecimento primeiro: o conhecimento sensível. Para que isso se concretize, faz-se necessário trabalhar a materialidade do ambiente, em que se encontram os atores, numa perspectiva científica. O conhecimento gerado com método, técnica, procedimentos, instrumentos e etc deve ter como ponto de partida o conhecimento sensível desses atores.
Logo, a ideia de interação entre conhecimento sensível e conhecimento científíco, particularmente no que se refere ao processo comunicacional, deve ser considerada.  Sendo assim, as relações dos agricultores familiares com as instituições responsáveis pelas políticas públicas destinadas ao homem devem ser submetidas a um contínuo processo de transformação. Portanto, o processo comunicacional no meio rural necessita

[...] de um trabalho de comunicação, no sentido de comunhão de idéias [...] no qual extensionistas, respeitando (e valorizando) a cultura do trabalhador rural, junto com ele (no seu grupo) problematizam a situação (com suas injustiças e contradições), buscando (sempre juntos e comprometidos integralmente) soluções alternativas aos problemas evidenciados (soluções que podem ser técnicas, políticas, econômicas, sociais ou culturais) (MUSSOI, 1985, p. 18).

A base desse processo de reestruturação do modelo comunicacional deve ser a idéia de intervir, no espaço dos agricultores familiares, sem desconsiderar o conhecimento técnico genérico como um dos principais insumos para a produção agrícola (CIMADEVILLA, 2004) sustentável, num processo de transferência de conhecimento que visa a administrar o fluxo de informações entre os atores: sujeitos do campo e instituições públicas. Nessa perspectiva, as instituições públicas não devem ditar suas determinações aos agricultores familiares. Ao contrário, deve preocupar-se em conhecer a realidade desses produtores e, a partir dela e com eles, discutir, elaborar e propor políticas que não ignorem a urgente necessidade do desenvolvimento sustentável.
A disseminação das ideias que sustentam as políticas elaboradas pelas instituições públicas - com a participação direta dos produtores rurais - deve ser feita por um processo comunicacional, compreendido como ato educativo, no qual se concretizam a troca de conhecimento e o entendimento mútuo entre os sujeitos.  Paulo Freire (2002) assegura que a produção do conhecimento implica uma relação social igualitária e dialógica entre os sujeitos. Esse ato comunicacional culmina em uma prática social transformadora. Isso significa que a comunicação é imprescindível para educar. O processo de aprendizagem, por sua vez, torna-se autêntico quando resulta em mudança de comportamento naquele que aprende (GUTIÉRREZ, 1978).
Insertos nesse processo, os agricultores familiares desenvolverão sua consciência crítica, exigindo que as instituições públicas respeitem e levem em consideração o conhecimento sensível. Esse conhecimento, conforme já discutimos anteriormente, resulta da atuação dos sujeitos sobre o meio, na medida em que o explora em seu favor, ao longo do tempo. Autonomia e dialogicidade presidem esse processo: homem e meio estabelecem uma comunicação inter-transitiva e de mão dupla. De acordo com Paulo Freire (2002), cada ser humano é detentor de um saber único, mesmo que rudimentar. A partir dessa lógica, as instituições públicas podem inaugurar um processo comunicacional dialógico, superando o modelo vertical (tradicional) de transmitir informações, próprio da dominação cultural.
De acordo com esse modelo (tradicional), o recorte temático é definido pela instituição e programado a partir de suas demandas e necessidades. Por isso, a mensagem nem sempre atinge o objetivo proposto. A linguagem, muitas vezes é inadequada, por não partir do repertório cultural do agricultor familiar.   Nesse modelo, a comunicação rural tradicionalmente se distinguiu, entre outras características, por uma comunicação face-a-face entre instituições fomentadoras e a população rural, para difundir inovações e políticas. Mas nem por isso a comunicação efetivamente se estabelecia: “Comunicar-se é sair de si mesmo para ir ao encontro do outro. A comunicação fundamenta-se em uma capacidade dualística de doação e recepção” (SÁ, 1973, p. 19).
Um dos fundamentos da comunicação inter-transitiva é o fluxo programado e sistemático de informações entre os diferentes interlocutores e setores sociais implicados no desenvolvimento rural. Porque programado e sistemático, esse fluxo de comunicação culmina em uma conscientização plena e efetiva dos interlocutores.  Sujeitos mais críticos e, portanto, mais conscientes de seu papel social atuam, agora, numa perspectiva sustentável: o desenvolvimento rural não pode, como acontecia em outras épocas, prescindir da preocupação com a sobrevivência das gerações futuras.
A comunicação, portanto, é um processo de dupla via, é diálogo e interação. A fonte e o receptor são ativos interlocutores e intercambiam poder. A compreensão recíproca, o enriquecimento mútuo, a comunhão, e particularmente a participação na descoberta e transformação da realidade são o objeto e função da comunicação. Informação-comunicação-conhecimento é o esquema desse modelo comunicacional, que gera processos de comunicação capazes de transformar espectadores em atores, sujeitos, cidadãos. O pressuposto dessa prática comunicativa é o fato de ela estar centrada mais nos processos do que nos instrumentos. Mais nos sentidos do que nos conteúdos. As estratégias de comunicação devem despertar ações e emoções ativas e desdobráveis em atitudes participativas, solidárias e políticas.

A comunicação rural precisa ser vista não como resultado exclusivo de interesses econômicos e políticos hegemônicos, mas como resultado do amadurecimento do diálogo entre o extensionista consciente de seu papel social e do produtor/trabalhador rural como sujeito histórico da relação (CIMADEVILLA, 1988, p. 114).

Para atingir esse amadurecimento, o processo comunicacional deve adequar-se sempre aos avanços tecnológicos impostos pela sociedade da informação. A interatividade, compreendida como um tipo de comunicação decorrente das potencialidades específicas de específicas configurações tecnológicas, deve ser uma das preocupações nesse momento. Pela seguinte razão: a sociedade vivencia uma nova revolução, denominada de digital. A revolução digital implica a passagem progressiva do mass media (cujos símbolos são a TV, o rádio, a imprensa, o cinema) para formas individualizadas de produção, difusão e estoque de informação. Em harmonia com as exigências desse novo momento da revolução digital, as informações não obedecem à hierarquia da árvore (um-todos), e sim à multiplicidade do rizoma (todos-todos) (LEMOS, 2004).
            Ao recorrer a esse rizoma, agricultores familiares e instituições públicas estabelecem uma modalidade de relação, cujos elementos, embora sejam os mesmos da hierarquia da árvore, “um-todos”, comportam-se de forma diferenciada. O emissor, antes detentor exclusivo do conhecimento, agora desenvolve conceitos, atribui valores à informação e as distribui, a partir da realidade do receptor, fonte primária dos conhecimentos a ser disponibilizados pela instituição pública. Logo, a relação vertical emissor - receptor é substituída por uma fluidez em que os dois pólos se alternam continuamente. O receptor supera a passividade que o marcava anteriormente. No lugar desta, surge, no processo comunicativo, um sujeito mobilizador e questionador que constantemente retro-alimenta esse processo, a partir de uma nova condição que lhe é atribuída: a condição de emissor. Sendo assim, no processo comunicacional, ambos os sujeitos participam no mesmo nível de poder (emissor – receptor – emissor).
A mensagem, antes configurada como algo dado e a ser comunicado, agora é informação mediada ou distribuída, no processo comunicacional, por qualquer elemento em qualquer formato. O conteúdo, antes elaborado e imposto pelas instituições fomentadoras de políticas públicas, agora é informação, comunicação ou conhecimento, produzido a partir de qualquer ferramenta de comunicação: analógica, digital, eletrônica, magnética, artesanal, híbrida, concreta ou virtual. O canal, antes um meio frio, massivo, vertical e impositivo, agora é todo espaço interno de convergência e negociação de conteúdos produzidos por qualquer sujeito, em qualquer circunstância, particularmente naquelas em que as informações circulam em fluxo contínuo, desestabilizando as noções de tempo-espaço.
Os filtros (e/ou interferências) são elementos que estimulam e sedimentam o processo de conhecimento do emissor e do receptor, tendo como ponto de partida o contexto social dos sujeitos, instituições e organizações. Nessa lógica, as instituições fomentadoras de políticas públicas recorrem às circunstâncias reais dos sujeitos do campo e sistematiza-as. Feito isso (quando dá um caráter de cientificidade ao conhecimento por meio dos filtros), o conhecimento, agora em outra lógica, é devolvido aos agricultores familiares, na condição de elemento agregador. Sendo assim, o conhecimento - antes produzido pelas instituições e de caráter universal, uma vez que endereçado a todos os agricultores familiares, ao mesmo tempo, independentemente do estágio de desenvolvimento de cada comunidade – passa a ter uma feição singular, na medida em que tem como fonte primeira a realidade concreta dos sujeitos, a partir das condições sociopolítica, econômica, histórica e cultural de cada grupo considerado: indicadores de contexto.
            Quando os sujeitos, instituições e organizações produzem conteúdos no Processo de Comunicação Todos-Todos, ocorre a chamada adaptação de conteúdo ao contexto. Nesse processo, a adequação do conhecimento à problemática do meio social em questão passa pelo filtro que harmoniza conhecimentos armazenados pelas instituições - e produzidos a partir da experiência sensível dos agricultores familiares - com a problemática em demanda, procurando encaminhar a melhor solução para esta, naquela circunstância. Ao adequar conhecimento aos seus problemas concretos, solucionando-os de acordo com as exigências do meio, os agricultores familiares estão engendrando um processo contínuo de retro-alimentação de conteúdos. Esses novos conhecimentos produzidos pelas negociações entre instituições e produtores rurais podem ser assimilados e socializados, por meio de ferramentas de comunicação, interativa e multimidiática, com outros sujeitos, para que possam adaptá-los as suas problemáticas específicas.
A definição do objetivo de produzir conhecimento adequado ao desenvolvimento sustentável, num fluxo contínuo, para que sujeitos, instituições e organizações ampliem o espaço inclusivo da comunicação, por meio das interfaces virtuais, é o primeiro passo a ser dado, quando da produção do conhecimento, num processo dialógico. A identificação da aplicabilidade social é outro momento importante na produção do conhecimento voltado para o desenvolvimento sustentável: toda e qualquer forma de conhecimento tem sua importância baseada na capacidade de transformar positivamente a vida do homem e do contexto em que ele está inserido. As marcas fundamentais desse contexto são as tecnologias da informação e da comunicação, recursos que inauguram novos modos de compreender cultura, identificar e aquilatar desempenhos sociais, bem como de produzir, difundir e estocar informações.
As formas individualizadas de produção, difusão e estoque de informações, interdependentes, interligadas e interconectadas, possibilitam navegar, em qualquer tempo e em qualquer lugar, e alcançar, inclusive, os centros de produção de conhecimento que dão origem a essas informações, num processo interativo e numa velocidade superior às imaginadas anteriormente pelo homem. O advento das tecnologias comunicacionais contemporâneas inaugurou uma estrutura social que Pretto (1996) denomina de “sociedade rede”: “[...] rede não mais como malhas ferroviárias, mas malhas óticas e eletromagnéticas, [...] elementos estruturadores de territórios, de novas formas de agir, pensar, sentir” (s/p). Em decorrência desse fato, 

As tradicionais divisões em que é repartido o mundo das comunicações de massa desaparecerão gradativamente. Há uma crescente interdependência entre as diversas mídias e uma diluição dos contornos de cada setor [...] A análise das características destes novos meios de comunicação nos leva a concluir, [...], que a distinção mantida mais ou menos artificialmente entre os meios de comunicação impressos e os meios eletrônicos tende a desaparecer, numa velocidade que nos escapa neste momento, [...] (CARITÃ apud GIOVANNINI, 1987, p. 293).

Essas redes, constituídas de um conjunto de unidades sociais que mantém relações entre eles, direta ou indiretamente, através de cadeias de tamanhos variáveis marcam o fim da centralidade das informações nos meios massivos e estabelecem outras vias comunicacionais. No caso específico das relações entre instituições produtoras de conhecimento e agricultores familiares, essa descentralização confere autonomia às instituições, evitando que o conhecimento que chega ao produtor resulte de um processo de comunicação que, além de fragmentar, manipula conceitos e comunica informações não compatíveis com as reais necessidades do agricultor familiar. 
Para fazer frente à veiculação de conceitos fragmentados e manipulados, deve se lançar mão das possibilidades oferecidas pelas tecnologias contemporâneas. Uma dessas possibilidades está configurada na telefonia móvel, por reunir todas as mídias possíveis e conhecíveis até o momento, em um único artefato. O celular, por meio de suas interfaces, oferece a possibilidade de novas práticas de sociabilidades, graças à sua natureza multifacetada. No campo, essa mídia pode favorecer a atualização e o papel ativo na obtenção das informações comunicadas pelas instituições produtoras de conhecimento voltado para produção agrícola. A telefonia móvel é uma das marcas da contemporaneidade. Por meio dela, são promovidas a descentralidade da informação e ações dialógicas com outros sujeitos, em tempo real (processos interativos). Sendo assim, “[...] não só a cidade, mas qualquer parte do mundo se tornou acessível ao toque de minúsculos dígitos de um pequeno aparelho que quase cabe na palma da mão” (SANTAELLA, 2004, p. 231).
No cotidiano dos agricultores familiares, o celular – mesmo aquele ligado a câmeras fotográficas e a sensores meteorológicos, químicos, biológicos, médicos e de raio gama – na maioria das vezes, tem apenas uma de suas funções exploradas, reduzindo-se, neste caso, à condição de simples canal de comunicação, o que favorece o contato entre pessoas distantes fisicamente, numa circunstância de mobilidade, mas não potencializa o desenvolvimento local e procura fazê-lo sustentável, como aconteceria caso todas as funções desse artefato fossem exploradas. Leve e diminuto, o celular oportuniza novas linguagens, novas formas de expressão e novas dimensões de tempo e espaço, permitindo ao sujeito moderno ocupar diferentes lugares ao mesmo tempo e intervir nos processos individuais e coletivos dos diferentes territórios que os agricultores familiares ocupam.
Modifica, portanto, as noções de presença-ausência dos sujeitos: o celular coloca diante de seus usuários pessoas e situações remotas, o que significa tornar virtualmente presente o que de fato está ausente. Acabar com a diferença entre tempo e lugar talvez seja uma das principais características das tecnologias móveis. Os celulares estão cumprindo esse papel, por intermédio do princípio da desterritorialização, que implica compreender os movimentos a partir de um pensamento móvel (LEMOS e LÉVY, 2010). O sujeito conectado em rede vivencia a ubiguidade, uma vez que pode estar, virtualmente, em vários lugares ao mesmo tempo.   Para Bonilla (2005),

Em torno da infra-estrutura material forma-se um espaço de comunicação, que permite articular indivíduos, instituições, comunidades, estando contidos também as informações e os seres humanos que por ele circulam e o alimentam. (p. 33).

Essa possibilidade de articulação deve ser explorada pelas instituições produtoras de conhecimento, em suas relações com os agricultores familiares, com o objetivo de promover uma comunicação rural com a autonomia necessária para dar aos sujeitos do campo orientações particulares e coletivas, a fim de que a gestão de seus relacionamentos seja efetiva para objetivar as transformações necessárias ao desenvolvimento local sustentável.
O celular, por suas virtudes atuais – receber, processar, armazenar, exibir texto, imagem e som juntos – é a ferramenta mais adequada para promover a comunicação com a autonomia que se faz necessária, a fim de que as comunidades rurais tenham o acesso necessário às informações que orientam as atividades de seu cotidiano. A telefonia móvel potencializa um relacionamento aproximado entre o extensionista rural e os sujeitos do campo, o que pode implicar a melhoria da vida dos agricultores familiares: além de expandir e fortalecer as redes, aumenta a capacidade dos atores sociais (extensionistas e agricultores familiares) para lidar com emergências, reduzir custos de viagem e maximizar seus resultados, aumentar a acessibilidade temporal e ampliar a eficiência das atividades.
A exploração adequada das potencialidades do celular viabiliza uma comunicação em tempo real, colocando instituições e agricultores familiares em contato direto e imediato, o que pode contribuir para melhorar as estratégias de produção, a comercialização de possíveis excedentes e a superação das vulnerabilidades próprias ao modelo produtivo praticado nas pequenas propriedades rurais. A informação é um fator fundamental para fins de desenvolvimento. Portanto, no universo rural, os celulares podem tornar-se uma grande ferramenta, na medida em que ampliam a velocidade e a facilidade na introdução de novos conhecimentos, particularmente daqueles oriundos das instituições (públicas e privadas), destinados a potencializar o desenvolvimento rural sustentável.
O celular habilita o fluxo de comunicação interativa, alterando as ecologias comunicativas existentes (TACCHI, 2009). Ainda de acordo com o autor, isso envolve as pessoas num processo comunicativo em uma rede social específica, de onde emanam informações segmentadas para uma comunicação eficiente. Por isso, o antigo discurso da assistência rural é substituído por um eco comunicacional e informativo de desenvolvimento que implica transformação rural, tendo sempre em foco a sustentabilidade. A telefonia celular pode ampliar a possibilidade de acesso a conhecimentos que tem em perspectiva a transformação das atividades do agricultor familiar, modificando, também, o espaço e o tempo no qual ele está inserido, sem prescindir das preocupações relativas ao desenvolvimento local sustentável.
Quando o celular é utilizado como ferramenta potencializadora do desenvolvimento local sustentável - por meio do conhecimento individual que pode se transformar em coletivo, na medida dos problemas e das necessidades de resolução destes pelos agricultores familiares - alguns impactos ao meio ambiente e à cultura local podem ser diminuidos. A influência da cultura urbana sobre a cultura local, subsumindo esta àquela; a redução do êxodo rural; as intervenções físicas no meio ambiente são alguns dos choques que podem ser reduzidos quando da utilização do celular numa perspectiva sustentável.
Idealmente, com o celular, teríamos dois caminhos com fluxos próprios: extensão rural à distancia e rastreamento da atividade oferecida. No primeiro caminho -extensão rural – poderíamos recorrer às tecnologias da informação e comunicação disponíveis e já adotadas em várias instituições. Essas, quando bem implantadas, são capazes de reduzir os gastos com combustível e manutenção da frota veicular em uso; os gastos com material gráfico, energia e água. Além desses avanços, outros devem ser considerados: o ganho de qualidade na formação dos agentes transformadores, sejam técnicos ou agricultores; a capacitação dos usuários para utilização das tecnologias contemporâneas e a obrigatoriedade de formação nas atividades afins, o que implicará ganhos econômicos e produtividade nas ações propostas.
No segundo caminho - rastreamento da atividade ofertada - seguiremos as pegadas da inovação, a fim de colocar em prática as tecnologias propostas no repasse do conhecimento. Agindo assim, potencializaremos a concretização das possibilidades postas pelo celular: estaremos transformando o campo e, consequentemente, o homem do campo, tornando-o multiplicador e legitimador de conhecimentos, além de executor de ações que visam ao desenvolvimento local com o

[...] envolvimento de múltiplas dimensões (sócio-economicas-ambientais-cientificas-tecnologicas.territoriais) e de inter-relações ativas dos atores envolvidos, com a finalidade de assegurar a sustentabilidade territorial, segundo as suas condições naturais e/u vocacionais (TENÓRIO, 2006, p. 13).
Com o advento do celular reciclável e neutro em emissão de carbono, os novos celulares vão gerar uma emissão de CO2 cerca de 15% menor do que os modelos tradicionais, podendo chegar à marca de 20%. Outro acontecimento alvissareiro é o protótipo de um celular autocarregável. O princípio é simples: existem muitas ondas magnéticas geradas por TVs, celulares, rádios, antenas. O celular consegue capturar grande parte dessas ondas, transformá-las em energia elétrica e mandá-las para sua própria bateria. Assim, enquanto está em stand-by, o celular aproveita essas ondas e se recarrega, o que implica um instrumento sustentável, aliado a funções sustentáveis, inclusos nessa condição tanto o próprio celular quanto o planeta.
Algumas considerações

De acordo com o que discutimos até aqui, o desenvolvimento local sustentável, orientado por discussões locais, é possível, embora exija alguns cuidados, que começam pela consciência da necessidade de explorar o meio ambiente, sem, contudo, esquecer das novas gerações: elas, num futuro imediato, precisarão explorar esse mesmo território, para garantir sua sobrevivência. A materialização dessa percepção se dá pelo aporte da comunicação, tendo como ferramentas as tecnologias contemporâneas. Interação e interatividade são, nesse contexto, os fundamentos de um processo de comunicação “todos-todos”, que amplia os diálogos livres, iguais e fraternos. Por meio desse expediente, o conhecimento, além de ser uma construção dialógica, é socializado na forma de fluxo contínuo de informações, diretamente influenciada por emissores e receptores concomitantemente. 
Logo, o desenvolvimento local sustentável deve estar atrelado à gestão social, sinônimo de gestão participativa, cujos atores, envolvidos em uma rede, discutem dialogicamente seus projetos e definem seus objetivos comuns, conduzindo à convicções e soluções de problemas. O envolvimento dos atores na gestão social é uma prática cidadã: os envolvidos são co-responsáveis pelas ações, uma vez que são conscientes das suas necessidades e da importância do diálogo.  
Isso incluiria as pessoas nos processos participativos. Os agricultores familiares estariam, portanto, insertos em um pluralismo de idéias e conceitos, que os tornariam sujeitos autônomos e co-autores da construção do bem-comum. A legitimidade dessas decisões locais deve ter origem nos processos de discussão, orientados pela premissa do pluralismo democrático. As decisões tomadas nesses processos devem orientar a implementação de políticas públicas. Busca-se, portanto, ações conjuntas, com a finalidade de desenvolver o local e o territorial, fazendo de suas relações específicas modus operandi de desenvolvimento local sustentável.
Nesse processo, as tecnologias contemporâneas desempenham papel fundamental, uma vez que elas potencializam um desenvolvimento que seria lento sem a concorrência dessas tecnologias. Isso significa que desenvolver não implica necessariamente apoio tecnológico, mas que este imprime aceleração ao desenvolvimento. Sendo assim, o celular, em sua versão mais atual (sustentável) - carregável com energia solar e itens reaproveitáveis - disporia de funções capazes de promover a integração entre sujeitos, com vistas ao desenvolvimento do homem em todas as suas dimensões e do ambiente onde ele está inserido. Em Palmas/TO, por exemplo, esse formato já vem sendo trabalhado no Assentamento Coqueirinho[4], como um projeto piloto, que envolve instituições públicas e privadas, responsáveis por políticas voltadas ao agricultor familiar. Essa experiência será apresentada em minha tese de doutoramento, no formato de estudo de caso, oportunidade em que será tratada como uma prática inovadora aplicada ao desenvolvimento local sustentável.

Referências


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[1] Doutorando em Ciência, Inovação e Tecnologia em Agropecuária - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/UFRRJ. Mestre em Geografia - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/UFMS. Graduado em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo – Universidade do Estado do Tocantins/UNITINS.
[2] Pós-doutor em Administração Pública - EBAPE/FGV, 2011, Doutor em Economia Aplicada pela Université Paris III (Sorbonne Nouvelle), 1999, Mestre em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ, DEA pela Université de Grenoble II. Professor Adjunto do Departamento de Economia do Instituto de Ciências Humanas e Sociais - ICHS, Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial e Políticas Públicas- PPGDT e do Doutorado em Ciência, Tecnologia e Inovação em Agropecuária - PPGCTIA da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ.
[3] Pitts, C. (ed.), M. Kerr, R. Janda, & C. Pitts (2009). Corporate Social Responsibility: A Legal Analysis (Toronto: LexisNexis).

[4] Criado em 1993, há 7 km do Plano Diretor de Palmas, na microbacia do Córrego Taquaruçu, a partir da compra da fazenda Coqueirinho, pelo Governo do Tocantins. O processo de ocupação obedeceu a uma dinâmica, por meio da qual foram distribuídas 173 chácaras com tamanho definido em 1 (um) alqueire, equivalente a 4,84 ha. Nessas glebas, assentaram-se as famílias cadastradas. Deu-se início, assim, ao primeiro assentamento rural das proximidades de Palmas, com os objetivos de: 1) ocupar as áreas adjacentes ao perímetro urbano e 2) fomentar o crescimento e desenvolvimento rural no entorno da Capital.

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