Tecnologias contemporâneas e desenvolvimento local sustentável
Lamounier Erthal Villela[2]
Basta termos clareza de que as mudanças não
acontecerão pela onipotência dos nossos pensamentos. É fundamental criar meios
para alcançar essa mudança. Marina Silva, 2010.
No começo toda mudança é um atalho. Miranda, 2012.
Resumo: este artigo propõe, em principio, uma investigação
teórica das possibilidades de fomentar um desenvolvimento local mais
sustentável através do fortalecimento de redes sociais e sua inserção
progressiva nos processos político-administrativos locais, no âmbito da
agricultura familiar. Na seqüência, e considerando as condições sociais e
políticas, o texto discute as possibilidades e dilemas do uso das novas
tecnologias de informação e comunicação para revigorar processos de coordenação
social em seu território e para revitalizar a participação comunitária na
gestão pública cidadã. Por fim, discute-se uma nova utilização de uma
ferramenta tecnológica visando explorar de maneira efetiva a opção comunitária
para promover o desenvolvimento sustentável na emergente sociedade em rede.
Palavras-chave: agricultura
familiar, sustentabilidade, telefonia móvel
Abstract: this article
proposes, in principle, a theoretical investigation of the possibilities of
promoting a more sustainable local development through the strengthening of
social networks and their progressive incorporation into local political and
administrative processes within the family farm. In the sequence, and considering
the social and political conditions, the paper discusses the possibilities and
dilemmas of the use of new information and communication technologies to
strengthen processes of social coordination in its territory and to revitalize
community involvement in managing public citizen. Finally, we discuss a new use
of a technological tool to attempt to explore the communitarian option to
promote sustainable development in the emerging network society.
Keywords: family farming,
sustainability, mobile phone.
Introdução:
O objetivo deste artigo é
identificar e discutir algumas questões relevantes sobre a formação dos agricultores
familiares para o desenvolvimento sustentável. A perspectiva em que nos
colocamos é a da comunicação e nosso foco são os processos de intervenção em uma
nova ruralidade. Que é possível um desenvolvimento econômico sustentável é o
nosso pressuposto. Com base neste, discutimos diferentes conceitos de
sustentabilidade e destacamos o papel das tecnologias contemporâneas na
construção e socialização dialógicas do conhecimento, entre agricultores
familiares. A inserção dos agricultores familiares no universo das tecnologias
da informação e comunicação - com a finalidade de minimizar as distâncias que
separam as instituições responsáveis pelas políticas públicas e esses
agricultores - é o que defendemos neste texto.
A discussão em torno do
desenvolvimento rural sustentável vem ganhando espaço cada vez maior no cenário
acadêmico e político. Esse assunto não se restringe somente às questões de
conceito, mas também e principalmente aos fatores que potencializam as práticas
sustentáveis. Entender o desenvolvimento é, antes de tudo, compreender que este
não está associado apenas ao crescimento econômico, mas acima de tudo à
melhoria da qualidade de vida dos sujeitos, ao bem comum e ao meio ambiente em
que eles estão inseridos. De acordo com Petitinga (s/d),
O aspecto econômico implica em aumento da renda e
riqueza, além das condições dignas de trabalho. A partir do momento em que
existe um trabalho digno e este trabalho gera riqueza, ele tende a contribuir
para a melhoria das oportunidades sociais. Do mesmo modo, a problemática
ambiental não pode ser dissociada da social. [...] O desgaste ambiental pode
não interferir diretamente a geração atual, mas pode comprometer sobremaneira
as próximas gerações (p.2).
A crescente crise
ambiental e agrária que o mundo assiste é consequência de um modelo adotado
pelas economias capitalistas que privilegiam as práticas produtivas,
dissociadas de estratégias de conservação de recursos naturais. Vivemos na
modernidade, definida e caracterizada por alguns pesquisadores, pela cultura do
excesso, do sempre mais, da exacerbação do consumo, do individualismo e do modo
de vida intenso e urgente. Vivemos em um mundo de contrastes, que tem um bilhão
de famélicos, sofrendo a iminência da falta de água doce e o excesso de
resíduos de diferentes procedências, cuja destinação é ainda ignorada.
Na contemporaneidade, viver é uma aventura complexa.
Em virtude disso, estamos nos inviabilizando como espécie, num processo
irreversível e alarmante de autodestruição. Em face desse quadro, Hawken et al.
(1999) ressaltam que em se mantendo os padrões atuais de uso e degradação do
meio ambiente, há de restar muito pouco, no final deste século.
Ao longo dos últimos anos, vem crescendo a quantidade
e a qualidade da consciência ambiental no mundo. Se as pessoas passaram a
adotar hábitos menos agressivos em relação ao meio ambiente, algumas empresas
incorporaram o conceito de sustentabilidade, usando-o com frequência, seja no
campo puramente retórico, seja em intervenções efetivas para conservar o espaço
onde estão inseridos. Outros empreendimentos, por sua vez, assumiram de fato um
compromisso com o mundo: não só repensam seus processos de produção de bens,
serviços e valores, como também se preocupam com o futuro, por meio da
disseminação da consciência de conservação e sustentabilidade.
Discursos
sobre sustentabilidade
A sustentabilidade, na perspectiva do meio ambiente é
um fator estratégico para a sobrevivência das espécies. Além disso, é mais que
um princípio de gestão ou uma nova onda de conceitos abstratos: representa um
conjunto de valores e práticas que deve ser incorporados ao posicionamento
estratégico das pessoas para definir posturas, permear relações e orientar
escolhas. Só depois se espera que esteja presente nos discursos proferidos
pelos porta-vozes (CEBDS, 2009).
Os conceitos de sustentabilidade já eram discutidos
nas universidades americanas, na década de 1950[3].
Ao longo dos anos seguintes até o final dos anos de 1980, houve um
aprofundamento não só do conceito de sustentabilidade, mas de desenvolvimento
sustentável. A urgência da introdução de práticas sustentáveis no dia a dia da
humanidade também passou a ser percebida a partir de então. Em 1987, a Comissão Mundial do
Meio Ambiente e Desenvolvimento conceituou desenvolvimento sustentável.
De acordo com esse conceito, desenvolvimento
sustentável é aquele “capaz de permitir a satisfação das necessidades da
geração presente sem comprometer a satisfação das necessidades e a
sobrevivência das gerações futuras” [...]. Sustentabilidade, portanto, é
condição de sobrevivência do planeta, do homem e de seus empreendimentos
(ALMEIDA, 2007), na medida em que se configura como ponto de intersecção entre
os negócios e os interesses da sociedade e do planeta. De acordo com
Constanza, Daly, Bartholomew (1991, p. 19):
La sostenibilidad es
una relación entre los sistemas económicos humanos dinámicos y los sistemas
ecológicos más grandes, dinámicos, pero con cambios más lentos, en la cual la
vida humana pueda continuar indefinidamente, los seres humanos puedan
prosperar, y las culturas humanas se puedan desarrollar. Sin embargo, en dicha
relación, los efectos de las actividades humanas permanecen dentro de límites,
de manera de no destruir la diversidad, complejidad y funciones del sistema
ecológico de soporte de la vida.
Maslow (1964) já defendia que o
sustentável deveria contemplar a satisfação contínua das carências humanas, compreendidas
como necessidade de um nível social e cultural mais elevado. Segurança,
liberdade, educação, emprego e recreação devem, portanto, ser considerados no
conceito de sustentabilidade.
No Brasil, a década de 1990 foi marcada por um forte
movimento das instituições públicas e privadas, na busca da conscientização do
papel social dessas instituições sobre a questão ambiental, considerada como
[...] um conjunto de
deficiências na reprodução do sistema, o qual se origina na indisponibilidade
ou escassez de elementos do processo produtivo advindos da natureza, tais como
matérias-primas e energia e seus desdobramentos ideopoliticos. [...] trata-se
da incapacidade do planeta de prover indefinidamente, os recursos necessários à
reprodução da vida, em condições históricas e sociais balizadas pelo alto nível
de produção e consumo (SILVA, 2010, p. 67).
Um importante marco no direcionamento desse processo
de conscientização, na década de 1990, foi a realização, no Rio de Janeiro, da
Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida
como Eco-92. Nesse encontro foram
debatidos e elaborados documentos fundamentais, com a participação empresarial:
a Agenda 21 e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima e a
Convenção Sobre Diversidade Biológica. A partir de então, com o objetivo de
discutir e aplicar o conceito de sustentabilidade, surgiram importantes
organizações, como Conselho Empresarial
Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável - CEBDS, o Instituto Ethos de
Empresas e Responsabilidade Social e o Grupo de Institutos, Fundações e
Empresas – Gife.
Dez anos após o encontro do Rio de Janeiro, foi
realizada a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável, em
Johannesburgo, África do Sul. Ali, perante representantes do mundo inteiro,
ficou claro que as instituições, como os Estados e as ONGs, são partes do
processo de conscientização para a sustentabilidade, o que revela o poder e a
importância de todos esses atores sociais no desafio de fazer da
sustentabilidade um ponto de pauta de suas agendas.
Por muito tempo, e ainda hoje, algumas instituições
vêm preferindo trabalhar os conceitos de sustentabilidade, sob a ótica da
responsabilidade social. De acordo com o Instituto Ethos (2010, s/p), esta
[...] pode ser
compreendida como a forma de gestão que se define pela relação ética e
transparente da instituição com todos os públicos com os quais elas se
relacionam e pelo estabelecimento de metas instituições com o desenvolvimento
da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as futuras
gerações, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades
sociais.
Outras instituições, por sua vez, seguem a lógica da conservação
ambiental, bem como do gerenciamento dos impactos ambientais, nos processos produtivos.
A dinâmica do sustentável, aplicada aos negócios das instituições e das
pessoas, nos mais diversos setores, potencializa o conceito de
sustentabilidade. Esse conceito envolve aspectos cruciais referentes à
manutenção, continuidade, sobrevivência e reputação do empreendimento.
Embora usados como sinônimos, desenvolvimento
sustentável difere do conceito de sustentabilidade. Segundo Moles et al.
(2008), sustentabilidade é uma “situação futura desejável”, enquanto
desenvolvimento sustentável é o “processo pelo qual nos movemos do presente status
quo para o futuro desejável”: “[...]Desarrollarse
significa expandir o realizar las potencialidades [...] a un estado más pleno,
mayor o mejor” (DALY, 1991. p. 14). A sustentabilidade está voltada para
uma condição desejável e necessita do desenvolvimento como processo para
alcançá-la, tendo em perspectiva a melhoria da qualidade de vida, mas sem
implicar aumento da quantidade de recursos necessários para tal. Como política
de obtenção de resultados em longo prazo:
[...] o
desenvolvimento sustentável é um processo de transformação no qual a exploração
dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento
tecnológico e a mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial
presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspirações humanas
(CMMAD, 1991. p. 49).
As contínuas transformações da sociedade, do individuo
e da coletividade comprometem a sustentabilidade. Esse comprometimento decorre
das mudanças dos objetivos individuais, pela transformação do coletivo, e dos
fatores que afetam a dinâmica da própria sociedade: as dimensões espacial,
social, ambiental, cultural e econômica. A dimensão espacial é uma das
primeiras questões do estudo do desenvolvimento sustentável. Trata-se do espaço
de análise, no qual devem ser definidos os atores e recursos referentes ao
processo de desenvolvimento.
Essa delimitação
depende dos objetivos da análise e da própria dinâmica da região em discussão,
posto que algumas vezes o corte analítico pode ser expresso pela divisão
política, enquanto as dinâmicas econômica social, cultural e ambiental
demonstram realidades completamente diferentes [...]. (SILVA, 2010, p. 29).
A percepção do espaço analítico visa à dinâmica
regional, a fim de que se possam definir os objetivos e recursos existentes em
uma região e refletir sobre a interação com os demais meios. O espaço de
abrangência é delimitado justamente pela interação e integração da comunidade
local. Os objetivos dessa comunidade serão definidos por ela mesma, tendo em
vista seus próprios recursos e a influência da sociedade mais ampla, avaliada
como meio e não como fim.
Pensar a dimensão espacial implica ter em consideração
as questões sociais, econômicas e culturais que delimitam os objetivos da sociedade
naquele espaço. A ótica econômica e ambiental e os recursos para a consecução
dos objetivos também devem estar em foco. Se ocorrem mudanças na dinâmica
dessas dimensões, a abrangência espacial pode ser alterada, na medida em que as
inter-relações e as variáveis se alteram.
A dimensão social diz respeito a temas referentes à
interação dos indivíduos e à situação da condição de vida da sociedade. A
interação dos indivíduos envolve o capital social, entendendo este como “valor
obtido em uma determinada região, a partir da interação existente naquela
sociedade” (SILVA, 2010, p. 31).
Um alto capital social
pode viabilizar projetos que economicamente seriam inviáveis em outro local, em
razão das externalidades possíveis, provenientes da sociedade local. Esse
capital é acumulado historicamente pela confiança e objetivos comuns dos
indivíduos em um determinado local. (SILVA, 2010, p. 31).
A condição de vida, um dos principais tópicos do
debate na dimensão da sustentabilidade social, tem como eixo central a
discussão da pobreza e o crescimento populacional. Considera os recursos
ambientais e econômicos - incluso neles o capital natural – escassos. Além
disso, implica o incremento contínuo da sociedade, fator sempre responsável
pela estagnação de seu processo de desenvolvimento e crise generalizada.
Em face disso, ações para garantir o uso mínimo de
recursos de forma individual são necessárias, mas não suficientes: “[...] mais
que garantir medidas de distribuições de recursos, dever-se-ia distribuir de
forma equitativas os recursos”. (SILVA, 2010, p. 31). Ainda segundo o autor, a
dimensão social é influenciada e afeta a dimensão econômica: uma das principais
formas e fontes de inter-relacionamento da sociedade concretiza-se pelas
transações econômicas.
Sociedade implica associação de pessoas com um
objetivo comum, seja cultural, econômico e etc.: “[...] as dimensões cultural e
econômica estão intimamente relacionadas com a formação da base social e, dessa
forma, com a dimensão social”. (SILVA, 2010, p. 31). Na medida em que pode ser
motivo de agregação ou desagregação da sociedade, a questão ambiental – ponto
de convergência de objetivos - também pode ser considerada. A interação dos
indivíduos e a constituição de uma dinâmica social resultam, principalmente, de
questões econômicas e culturais, delimitadas em um determinado espaço e tempo.
A dimensão ambiental reflete um novo capital para o
sistema capitalista: o capital natural. Esse capital permite redimensionar o
conceito de desenvolvimento para a ótica sustentável. O artigo 3, da Lei n.
6.938, de 31/08/1981, assim define meio ambiente: “Conjunto de condições, leis,
influências e interações de ordem física, química, biológica, o que permite,
abriga e rege a vida em todas as suas formas”. É inegável a preocupação em conservar
o meio ambiente. As instituições formais expressas em leis e na Constituição de
1988 são responsáveis por essa conservação. Para isso, deve promover o
desenvolvimento econômico-social, em harmonia com o meio ambiente, o que
significa exploração equilibrada dos recursos naturais necessários ao bem-estar
da sociedade. A dimensão ambiental
interage com as dimensões econômica e social, limitando-as com vistas ao
desenvolvimento sustentável.
A cultura – conjunto das experiências humanas de uma
determinada sociedade – alimenta-se de um processo de aprendizagem social
contínuo, que implica a construção de princípios e valores que podem estar
preocupados com o desenvolvimento sustentável de uma sociedade. O processo contínuo de aprendizagem social
e troca de experiências na sociedade, ao longo do tempo, transforma a cultura:
“[...] a percepção dos objetivos comuns e do que se espera da sustentabilidade
se altera também historicamente”. (SILVA, 2010, p. 33). Nesse processo, o
Estado e suas diferentes instituições têm papel preponderante.
Todas as dimensões que interferem nos valores da
sociedade afetam a dimensão cultural. As razões são as mais diversas: evitar a
reedição de problemas indesejáveis no futuro; amadurecimento social e busca de
novos rumos e, ainda, a vivência de um presente marcado por questionamentos de
valores, que pode ter origem individual, coletiva, econômica, social, ambiental
ou espacial (SILVA, 2010).
A dimensão econômica, a mais discutida no sistema
capitalista, parte do principio de que o capital é a mola propulsora das
relações sociais: “[...] as relações por meio das transações econômicas são de
substancial importância para o desenvolvimento da sociedade”. (SILVA, 2010, p.
33). Preocupar-se com a dimensão econômica implica estar preocupado com três
questões: como?; para quem?; o que produzir?. A primeira questão – como
produzir? – ganhou relevância com o discurso ambientalista e a percepção dos
principais agentes econômicos: os recursos, cada vez mais escassos, impõem limites
ao crescimento contínuo da economia e reorienta o desenvolvimento de novas
tecnologias e formas de produção.
Esse questionamento envolve duas outras questões: a
otimização dos recursos e a tentativa de maximizar os resultados dos benefícios
em relação aos custos: “[...] a dimensão econômica se inter-relaciona com a
sociedade (dimensão social e cultural) tanto em termos de recursos (humanos)
existentes quanto dos desejos expressos pelos consumidores e novos objetivos
individuais [...]”. (SILVA, 2010, p. 34). As dimensões ambiental e espacial, na
visão econômica neoclássica, são entendidas como fontes de recursos. Por isso,
devem ser consideradas sempre que se pretende transformar recursos em produtos.
As regras do jogo do mercado devem influenciar essas inter-relações, com vistas
a garantir o desenvolvimento sustentável da sociedade.
Em resumo: a dimensão espacial diz respeito à relação
entre os atores e as potencialidades materiais e intelectuais do meio onde eles
se encontram inseridos. A dimensão social se refere à percepção que se tem da
forma de interação dos indivíduos com o contexto em que vivem e suas
possibilidades de atuação para preservá-lo ou modificá-lo. A dimensão ambiental
- ao contrário do que se pode pensar - trata o meio ambiente não como valor em
si, mas sim como possibilidade de novos investimentos e lucros. Logo, os
recursos naturais são encarados como potencialidades que garantem a permanência
dos processos produtivos capitalistas. A dimensão econômica, aspecto mais
discutido pelo capitalismo, em função de seus objetivos, considera o capital
como suporte das relações sociais. Todas essas dimensões afetam, direta ou
indiretamente, a dimensão cultural, influenciando a maneira como os sujeitos se
percebem no contexto em que vivem, o que redimensiona sua maneira de pensar,
agir e produzir.
No caso da agricultura familiar, os discursos
institucionais sobre sustentabilidade chegam aos atores, por meio do processo
comunicacional unidirecional, que recorre, principalmente, a dois canais: a televisão
aberta e o rádio. Esse processo, apoiado por esses canais, reorienta a
produção, por intermédio da transferência de um conhecimento plasmado sem ter
em consideração a cultura dos atores a quem se destina. Isso significa que o
conhecimento transmitido unilateralmente pela mídia não é construído a partir
da realidade dos atores por ela afetados.
A incorporação do discurso da
sustentabilidade na comunicação rural
O alheiamento dos atores do processo de construção do
conhecimento a eles unilateralmente comunicado tem a ver com a própria lógica
desse processo. Os avanços da ciência orientam as políticas institucionais.
Estas abastecem o sistema de comunicação com idéias fragmentadas e
terminologias esvaziadas de seu conteúdo original. Os canais de comunicação,
por sua vez, elaboram seus discursos a partir dos significantes apresentados
pelas políticas públicas, amalgamados pela ideologia que permeia essas
políticas.
Esse discurso, veiculado principalmente pela televisão
aberta e pelo rádio, conforme já referimos acima, contém as orientações que os
governos pretendem sejam assimiladas pelos agricultores familiares. Essas
orientações ganham objetividade, ignorando os conhecimentos empíricos dos
sujeitos, construídos a partir de sua experiência sensível. Esse fato implica uma consequência: a baixa
capacidade de intervenção dos conhecimentos veiculados pelos meios de
comunicação na realidade concreta dos sujeitos.
Para potencializar a capacidade de intervenção dos
conhecimentos produzidos pela ciência, recortados pelas políticas públicas e
agendados pelos meios de comunicação, faz-se necessário reestruturar o modelo
de comunicação estabelecido pelas instituições públicas cujas políticas estão
voltadas para os agricultores familiares. Essa reestruturação implica
aperfeiçoamento no processo comunicacional, para superar a dicotomia entre
conhecimento sensível - conhecimento decorrente da experiência - e conhecimento
científico.
O conhecimento sensível, fruto da atividade dos
sentidos, é a primeira forma de conhecimento humano. Por meio dele, entramos em
contato com a materialidade do mundo. O agricultor familiar, em sua grande
maioria, maneja-se no mundo, tendo como bússola o fruto da atividade dos
sentidos – conhecimento empírico – como a percepção de cores, sons, imagens e
lembranças. O objeto do conhecimento sensível são as coisas materiais. Logo,
conhecer significa ver, ouvir, provar, exalar e apalpar. Enfim, conhecer é
sentir. Quanto às lembranças, elas são responsáveis não só pela utilização
desse tipo de conhecimento pelos agricultores familiares, mas também por
transmiti-lo às gerações futuras, influenciando sua vida, particularmente no
que diz respeito aos mecanismos de produção.
O conhecimento científico é a forma de conhecimento da
realidade distinta por ser racional, sistemática, exata e verificável. Os métodos de verificação, fundamentados na
metodologia científica, são a origem desse conhecimento, ao mesmo tempo,
objetivo, analítico, além de ater-se aos fatos e transcendê-los. Trata-se,
portanto, de um modo de conhecer que exige mais do que o saber adquirido na
chave de tentativa-erro-repetição,
característica do conhecimento empírico. Logo, constitui-se um novo modo de
apreender as coisas. Agora, não mais como mera ocorrência fortuita, mas a partir
da relação entre essas ocorrências (efeitos) e suas causas, tendo sempre em
perspectiva as leis que as regem.
Os agricultores familiares, mesmo aqueles detentores
do saber adquirido por meio da tentativa-erro-repetição, podem tornar-se,
também, agentes orientados pelos conhecimentos baseados na metodologia
científica, sem, contudo, prescindir de seu conhecimento primeiro: o
conhecimento sensível. Para que isso se concretize, faz-se necessário trabalhar
a materialidade do ambiente, em que se encontram os atores, numa perspectiva
científica. O conhecimento gerado com método, técnica, procedimentos,
instrumentos e etc deve ter como ponto de partida o conhecimento sensível
desses atores.
Logo, a ideia de interação entre conhecimento sensível
e conhecimento científíco, particularmente no que se refere ao processo
comunicacional, deve ser considerada.
Sendo assim, as relações dos agricultores familiares com as instituições
responsáveis pelas políticas públicas destinadas ao homem devem ser submetidas
a um contínuo processo de transformação. Portanto, o processo comunicacional no
meio rural necessita
[...] de um trabalho
de comunicação, no sentido de comunhão de idéias [...] no qual
extensionistas, respeitando (e valorizando) a cultura do trabalhador rural, junto
com ele (no seu grupo)
problematizam a situação (com suas injustiças e contradições), buscando (sempre
juntos e comprometidos integralmente)
soluções alternativas aos problemas evidenciados (soluções que podem ser
técnicas, políticas, econômicas, sociais ou culturais) (MUSSOI, 1985, p. 18).
A base desse processo de reestruturação do modelo
comunicacional deve ser a idéia de intervir, no espaço dos agricultores
familiares, sem desconsiderar o conhecimento técnico genérico como um dos
principais insumos para a produção agrícola (CIMADEVILLA, 2004) sustentável,
num processo de transferência de conhecimento que visa a administrar o fluxo de
informações entre os atores: sujeitos do campo e instituições públicas. Nessa
perspectiva, as instituições públicas não devem ditar suas determinações aos agricultores
familiares. Ao contrário, deve preocupar-se em conhecer a realidade desses
produtores e, a partir dela e com eles, discutir, elaborar e propor políticas
que não ignorem a urgente necessidade do desenvolvimento sustentável.
A disseminação das ideias que sustentam as políticas
elaboradas pelas instituições públicas - com a participação direta dos
produtores rurais - deve ser feita por um processo comunicacional, compreendido
como ato educativo, no qual se concretizam a troca de conhecimento e o
entendimento mútuo entre os sujeitos.
Paulo Freire (2002) assegura que a produção do conhecimento implica uma
relação social igualitária e dialógica entre os sujeitos. Esse ato
comunicacional culmina em uma prática social transformadora. Isso significa que
a comunicação é imprescindível para educar. O processo de aprendizagem, por sua
vez, torna-se autêntico quando resulta em mudança de comportamento naquele que
aprende (GUTIÉRREZ, 1978).
Insertos nesse processo, os agricultores familiares desenvolverão
sua consciência crítica, exigindo que as instituições públicas respeitem e
levem em consideração o conhecimento sensível. Esse conhecimento, conforme já
discutimos anteriormente, resulta da atuação dos sujeitos sobre o meio, na
medida em que o explora em seu favor, ao longo do tempo. Autonomia e
dialogicidade presidem esse processo: homem e meio estabelecem uma comunicação
inter-transitiva e de mão dupla. De acordo com Paulo Freire (2002), cada ser
humano é detentor de um saber único, mesmo que rudimentar. A partir dessa
lógica, as instituições públicas podem inaugurar um processo comunicacional
dialógico, superando o modelo vertical (tradicional) de transmitir informações,
próprio da dominação cultural.
De acordo com esse modelo (tradicional), o recorte
temático é definido pela instituição e programado a partir de suas demandas e
necessidades. Por isso, a mensagem nem sempre atinge o objetivo proposto. A
linguagem, muitas vezes é inadequada, por não partir do repertório cultural do agricultor
familiar. Nesse modelo, a comunicação
rural tradicionalmente se distinguiu, entre outras características, por uma
comunicação face-a-face entre instituições fomentadoras e a população rural,
para difundir inovações e políticas. Mas nem por isso a comunicação
efetivamente se estabelecia: “Comunicar-se é sair de si mesmo para ir ao
encontro do outro. A comunicação fundamenta-se em uma capacidade dualística de
doação e recepção” (SÁ, 1973, p. 19).
Um dos fundamentos da comunicação inter-transitiva é o
fluxo programado e sistemático de informações entre os diferentes
interlocutores e setores sociais implicados no desenvolvimento rural. Porque
programado e sistemático, esse fluxo de comunicação culmina em uma
conscientização plena e efetiva dos interlocutores. Sujeitos mais críticos e, portanto, mais
conscientes de seu papel social atuam, agora, numa perspectiva sustentável: o
desenvolvimento rural não pode, como acontecia em outras épocas, prescindir da
preocupação com a sobrevivência das gerações futuras.
A comunicação, portanto, é um processo de dupla via, é
diálogo e interação. A fonte e o receptor são ativos interlocutores e
intercambiam poder. A compreensão recíproca, o enriquecimento mútuo, a
comunhão, e particularmente a participação na descoberta e transformação da
realidade são o objeto e função da comunicação.
Informação-comunicação-conhecimento é o esquema desse modelo comunicacional,
que gera processos de comunicação capazes de transformar espectadores em
atores, sujeitos, cidadãos. O pressuposto dessa prática comunicativa é o fato
de ela estar centrada mais nos processos do que nos instrumentos. Mais nos
sentidos do que nos conteúdos. As estratégias de comunicação devem despertar
ações e emoções ativas e desdobráveis em atitudes participativas, solidárias e
políticas.
A comunicação rural
precisa ser vista não como resultado exclusivo de interesses econômicos e
políticos hegemônicos, mas como resultado do amadurecimento do diálogo entre o
extensionista consciente de seu papel social e do produtor/trabalhador rural
como sujeito histórico da relação (CIMADEVILLA, 1988, p. 114).
Para atingir esse amadurecimento, o processo
comunicacional deve adequar-se sempre aos avanços tecnológicos impostos pela
sociedade da informação. A interatividade, compreendida como um tipo de
comunicação decorrente das potencialidades específicas de específicas
configurações tecnológicas, deve ser uma das preocupações nesse momento. Pela
seguinte razão: a sociedade vivencia uma nova revolução, denominada de digital.
A revolução digital implica a passagem progressiva do mass media (cujos
símbolos são a TV, o rádio, a imprensa, o cinema) para formas individualizadas
de produção, difusão e estoque de informação. Em harmonia com as exigências
desse novo momento da revolução digital, as informações não obedecem à
hierarquia da árvore (um-todos), e sim à multiplicidade do rizoma (todos-todos)
(LEMOS, 2004).
Ao recorrer
a esse rizoma, agricultores familiares e instituições públicas estabelecem uma
modalidade de relação, cujos elementos, embora sejam os mesmos da hierarquia da
árvore, “um-todos”, comportam-se de forma diferenciada. O emissor, antes
detentor exclusivo do conhecimento, agora desenvolve conceitos, atribui valores
à informação e as distribui, a partir da realidade do receptor, fonte primária
dos conhecimentos a ser disponibilizados pela instituição pública. Logo, a
relação vertical emissor - receptor é substituída por uma fluidez em que os
dois pólos se alternam continuamente. O receptor supera a passividade que o
marcava anteriormente. No lugar desta, surge, no processo comunicativo, um
sujeito mobilizador e questionador que constantemente retro-alimenta esse
processo, a partir de uma nova condição que lhe é atribuída: a condição de
emissor. Sendo assim, no processo comunicacional, ambos os sujeitos participam
no mesmo nível de poder (emissor – receptor – emissor).
A mensagem, antes configurada como algo dado e a ser
comunicado, agora é informação mediada ou distribuída, no processo
comunicacional, por qualquer elemento em qualquer formato. O conteúdo, antes
elaborado e imposto pelas instituições fomentadoras de políticas públicas,
agora é informação, comunicação ou conhecimento, produzido a partir de qualquer
ferramenta de comunicação: analógica, digital, eletrônica, magnética,
artesanal, híbrida, concreta ou virtual. O canal, antes um meio frio, massivo,
vertical e impositivo, agora é todo espaço interno de convergência e negociação
de conteúdos produzidos por qualquer sujeito, em qualquer circunstância,
particularmente naquelas em que as informações circulam em fluxo contínuo,
desestabilizando as noções de tempo-espaço.
Os filtros (e/ou interferências) são elementos que
estimulam e sedimentam o processo de conhecimento do emissor e do receptor,
tendo como ponto de partida o contexto social dos sujeitos, instituições e
organizações. Nessa lógica, as instituições fomentadoras de políticas públicas
recorrem às circunstâncias reais dos sujeitos do campo e sistematiza-as. Feito
isso (quando dá um caráter de cientificidade ao conhecimento por meio dos
filtros), o conhecimento, agora em outra lógica, é devolvido aos agricultores
familiares, na condição de elemento agregador. Sendo assim, o conhecimento -
antes produzido pelas instituições e de caráter universal, uma vez que
endereçado a todos os agricultores familiares, ao mesmo tempo,
independentemente do estágio de desenvolvimento de cada comunidade – passa a
ter uma feição singular, na medida em que tem como fonte primeira a realidade
concreta dos sujeitos, a partir das condições sociopolítica, econômica,
histórica e cultural de cada grupo considerado: indicadores de contexto.
Quando os sujeitos, instituições e
organizações produzem conteúdos no Processo de Comunicação Todos-Todos, ocorre
a chamada adaptação de conteúdo ao contexto. Nesse processo, a adequação do
conhecimento à problemática do meio social em questão passa pelo filtro que
harmoniza conhecimentos armazenados pelas instituições - e produzidos a partir
da experiência sensível dos agricultores familiares - com a problemática em
demanda, procurando encaminhar a melhor solução para esta, naquela
circunstância. Ao adequar conhecimento aos seus problemas concretos,
solucionando-os de acordo com as exigências do meio, os agricultores familiares
estão engendrando um processo contínuo de retro-alimentação de conteúdos. Esses
novos conhecimentos produzidos pelas negociações entre instituições e
produtores rurais podem ser assimilados e socializados, por meio de ferramentas
de comunicação, interativa e multimidiática, com outros sujeitos, para que
possam adaptá-los as suas problemáticas específicas.
A definição do objetivo de produzir conhecimento
adequado ao desenvolvimento sustentável, num fluxo contínuo, para que sujeitos,
instituições e organizações ampliem o espaço inclusivo da comunicação, por meio
das interfaces virtuais, é o primeiro passo a ser dado, quando da produção do
conhecimento, num processo dialógico. A identificação da aplicabilidade social
é outro momento importante na produção do conhecimento voltado para o
desenvolvimento sustentável: toda e qualquer forma de conhecimento tem sua
importância baseada na capacidade de transformar positivamente a vida do homem
e do contexto em que ele está inserido. As marcas fundamentais desse contexto são
as tecnologias da informação e da comunicação, recursos que inauguram novos
modos de compreender cultura, identificar e aquilatar desempenhos sociais, bem
como de produzir, difundir e estocar informações.
As formas individualizadas de produção, difusão e
estoque de informações, interdependentes, interligadas e interconectadas,
possibilitam navegar, em qualquer tempo e em qualquer lugar, e alcançar,
inclusive, os centros de produção de conhecimento que dão origem a essas
informações, num processo interativo e numa velocidade superior às imaginadas
anteriormente pelo homem. O advento das tecnologias comunicacionais
contemporâneas inaugurou uma estrutura social que Pretto (1996) denomina de
“sociedade rede”: “[...] rede não mais como malhas ferroviárias, mas malhas
óticas e eletromagnéticas, [...] elementos estruturadores de territórios, de
novas formas de agir, pensar, sentir” (s/p). Em decorrência desse fato,
As tradicionais
divisões em que é repartido o mundo das comunicações de massa desaparecerão
gradativamente. Há uma crescente interdependência entre as diversas mídias e
uma diluição dos contornos de cada setor [...] A análise das características
destes novos meios de comunicação nos leva a concluir, [...], que a distinção
mantida mais ou menos artificialmente entre os meios de comunicação impressos e
os meios eletrônicos tende a desaparecer, numa velocidade que nos escapa neste
momento, [...] (CARITÃ apud GIOVANNINI, 1987, p. 293).
Essas redes, constituídas de um conjunto de unidades
sociais que mantém relações entre eles, direta ou indiretamente, através de
cadeias de tamanhos variáveis marcam o fim da centralidade das informações nos
meios massivos e estabelecem outras vias comunicacionais. No caso específico
das relações entre instituições produtoras de conhecimento e agricultores
familiares, essa descentralização confere autonomia às instituições, evitando
que o conhecimento que chega ao produtor resulte de um processo de comunicação
que, além de fragmentar, manipula conceitos e comunica informações não
compatíveis com as reais necessidades do agricultor familiar.
Para fazer frente à veiculação de conceitos
fragmentados e manipulados, deve se lançar mão das possibilidades oferecidas
pelas tecnologias contemporâneas. Uma dessas possibilidades está configurada na
telefonia móvel, por reunir todas as mídias possíveis e conhecíveis até o
momento, em um único artefato. O celular, por meio de suas interfaces, oferece
a possibilidade de novas práticas de sociabilidades, graças à sua natureza
multifacetada. No campo, essa mídia pode favorecer a atualização e o papel
ativo na obtenção das informações comunicadas pelas instituições produtoras de
conhecimento voltado para produção agrícola. A telefonia móvel é uma das marcas
da contemporaneidade. Por meio dela, são promovidas a descentralidade da
informação e ações dialógicas com outros sujeitos, em tempo real (processos
interativos). Sendo assim, “[...] não só a cidade, mas qualquer parte do mundo
se tornou acessível ao toque de minúsculos dígitos de um pequeno aparelho que
quase cabe na palma da mão” (SANTAELLA, 2004, p. 231).
No cotidiano dos agricultores familiares, o celular –
mesmo aquele ligado a câmeras fotográficas e a sensores meteorológicos,
químicos, biológicos, médicos e de raio gama – na maioria das vezes, tem apenas
uma de suas funções exploradas, reduzindo-se, neste caso, à condição de simples
canal de comunicação, o que favorece o contato entre pessoas distantes
fisicamente, numa circunstância de mobilidade, mas não potencializa o
desenvolvimento local e procura fazê-lo sustentável, como aconteceria caso
todas as funções desse artefato fossem exploradas. Leve e diminuto, o celular
oportuniza novas linguagens, novas formas de expressão e novas dimensões de
tempo e espaço, permitindo ao sujeito moderno ocupar diferentes lugares ao
mesmo tempo e intervir nos processos individuais e coletivos dos diferentes
territórios que os agricultores familiares ocupam.
Modifica, portanto, as noções de presença-ausência dos
sujeitos: o celular coloca diante de seus usuários pessoas e situações remotas,
o que significa tornar virtualmente presente o que de fato está ausente. Acabar
com a diferença entre tempo e lugar talvez seja uma das principais
características das tecnologias móveis. Os celulares estão cumprindo esse
papel, por intermédio do princípio da
desterritorialização, que implica compreender os movimentos a partir de um
pensamento móvel (LEMOS e LÉVY, 2010). O sujeito conectado em rede
vivencia a ubiguidade, uma vez que pode estar, virtualmente, em vários lugares
ao mesmo tempo. Para Bonilla (2005),
Em torno da infra-estrutura material forma-se um
espaço de comunicação, que permite articular indivíduos, instituições,
comunidades, estando contidos também as informações e os seres humanos que por
ele circulam e o alimentam. (p. 33).
Essa possibilidade de articulação deve ser explorada
pelas instituições produtoras de conhecimento, em suas relações com os agricultores
familiares, com o objetivo de promover uma comunicação rural com a autonomia
necessária para dar aos sujeitos do campo orientações particulares e coletivas,
a fim de que a gestão de seus relacionamentos seja efetiva para objetivar as
transformações necessárias ao desenvolvimento local sustentável.
O celular, por suas virtudes atuais – receber,
processar, armazenar, exibir texto, imagem e som juntos – é a ferramenta mais
adequada para promover a comunicação com a autonomia que se faz necessária, a
fim de que as comunidades rurais tenham o acesso necessário às informações que
orientam as atividades de seu cotidiano. A telefonia móvel potencializa um
relacionamento aproximado entre o extensionista rural e os
sujeitos do campo, o que pode implicar a melhoria da vida
dos agricultores
familiares: além de expandir e fortalecer as redes, aumenta a capacidade dos atores sociais (extensionistas e agricultores familiares) para lidar com emergências, reduzir custos
de viagem e maximizar seus resultados, aumentar a acessibilidade temporal e ampliar a
eficiência das atividades.
A
exploração adequada das potencialidades do celular viabiliza uma comunicação em
tempo real, colocando instituições e agricultores familiares em contato
direto e imediato, o que pode contribuir para melhorar as estratégias
de produção, a comercialização de possíveis excedentes e
a superação das vulnerabilidades próprias ao modelo produtivo
praticado nas pequenas propriedades rurais. A informação é um fator fundamental
para fins de desenvolvimento. Portanto, no universo rural, os celulares podem
tornar-se uma grande ferramenta, na medida em que ampliam a velocidade e a
facilidade na introdução de novos conhecimentos, particularmente daqueles
oriundos das instituições (públicas e privadas), destinados a potencializar o
desenvolvimento rural sustentável.
O celular habilita o
fluxo de comunicação interativa, alterando as ecologias comunicativas
existentes (TACCHI, 2009). Ainda de acordo com o autor, isso envolve as pessoas
num processo comunicativo em uma rede social específica, de onde emanam
informações segmentadas para uma comunicação eficiente. Por isso, o antigo
discurso da assistência rural é substituído por um eco comunicacional e
informativo de desenvolvimento que implica transformação rural, tendo sempre em
foco a sustentabilidade. A telefonia celular pode ampliar a possibilidade de acesso
a conhecimentos que tem em perspectiva a transformação das atividades do agricultor
familiar, modificando, também, o espaço e o tempo no qual ele está inserido,
sem prescindir das preocupações relativas ao desenvolvimento local sustentável.
Quando o celular é
utilizado como ferramenta potencializadora do desenvolvimento local sustentável
- por meio do conhecimento individual que pode se transformar em coletivo, na
medida dos problemas e das necessidades de resolução destes pelos agricultores
familiares - alguns impactos ao meio ambiente e à cultura local podem ser diminuidos.
A influência da cultura urbana sobre a cultura local, subsumindo esta àquela; a
redução do êxodo rural; as intervenções físicas no meio ambiente são alguns dos
choques que podem ser reduzidos quando da utilização do celular numa
perspectiva sustentável.
Idealmente, com o
celular, teríamos dois caminhos com fluxos próprios: extensão rural à distancia
e rastreamento da atividade oferecida. No primeiro caminho -extensão rural – poderíamos
recorrer às tecnologias da informação e comunicação disponíveis e já adotadas
em várias instituições. Essas, quando bem implantadas, são capazes de reduzir
os gastos com combustível e manutenção da frota veicular em uso; os gastos com
material gráfico, energia e água. Além desses avanços, outros devem ser
considerados: o ganho de qualidade na formação dos agentes transformadores,
sejam técnicos ou agricultores; a capacitação dos usuários para utilização das tecnologias
contemporâneas e a obrigatoriedade de formação nas atividades afins, o que
implicará ganhos econômicos e produtividade nas ações propostas.
No segundo caminho - rastreamento
da atividade ofertada - seguiremos as pegadas da inovação, a fim de colocar em
prática as tecnologias propostas no repasse do conhecimento. Agindo assim, potencializaremos
a concretização das possibilidades postas pelo celular: estaremos transformando
o campo e, consequentemente, o homem do campo, tornando-o multiplicador e
legitimador de conhecimentos, além de executor de ações que visam ao
desenvolvimento local com o
[...] envolvimento de múltiplas dimensões (sócio-economicas-ambientais-cientificas-tecnologicas.territoriais)
e de inter-relações ativas dos atores envolvidos, com a finalidade de assegurar
a sustentabilidade territorial, segundo as suas condições naturais e/u
vocacionais (TENÓRIO, 2006, p. 13).
Com o advento do celular reciclável e neutro em emissão de carbono, os novos celulares vão gerar uma emissão de CO2
cerca de 15% menor do que os modelos tradicionais, podendo chegar à
marca de 20%. Outro
acontecimento alvissareiro é o protótipo
de um celular autocarregável. O princípio
é simples: existem muitas ondas magnéticas geradas por TVs,
celulares, rádios, antenas. O celular consegue capturar grande parte dessas ondas, transformá-las em energia elétrica e mandá-las para sua própria bateria.
Assim, enquanto está em stand-by, o
celular aproveita essas ondas e se recarrega, o que implica um instrumento
sustentável, aliado a funções sustentáveis, inclusos nessa condição tanto o
próprio celular quanto o planeta.
Algumas considerações
De acordo com o que
discutimos até aqui, o desenvolvimento local sustentável, orientado por
discussões locais, é possível, embora exija alguns cuidados, que começam pela
consciência da necessidade de explorar o meio ambiente, sem, contudo, esquecer
das novas gerações: elas, num futuro imediato, precisarão explorar esse mesmo
território, para garantir sua sobrevivência. A materialização dessa percepção
se dá pelo aporte da comunicação, tendo como ferramentas as tecnologias
contemporâneas. Interação e interatividade são, nesse contexto, os fundamentos
de um processo de comunicação “todos-todos”, que amplia os diálogos livres,
iguais e fraternos. Por meio desse expediente, o conhecimento, além de ser uma
construção dialógica, é socializado na forma de fluxo contínuo de informações,
diretamente influenciada por emissores e receptores concomitantemente.
Logo, o desenvolvimento
local sustentável deve estar atrelado à gestão social, sinônimo de gestão
participativa, cujos atores, envolvidos em uma rede, discutem dialogicamente
seus projetos e definem seus objetivos comuns, conduzindo à convicções e
soluções de problemas. O envolvimento dos atores na gestão social é uma prática
cidadã: os envolvidos são co-responsáveis pelas ações, uma vez que são conscientes
das suas necessidades e da importância do diálogo.
Isso incluiria as pessoas
nos processos participativos. Os agricultores familiares estariam, portanto,
insertos em um pluralismo de idéias e conceitos, que os tornariam sujeitos autônomos
e co-autores da construção do bem-comum. A legitimidade dessas decisões locais
deve ter origem nos processos de discussão, orientados pela premissa do
pluralismo democrático. As decisões tomadas nesses processos devem orientar a
implementação de políticas públicas. Busca-se, portanto, ações conjuntas, com a
finalidade de desenvolver o local e o territorial, fazendo de suas relações
específicas modus operandi de
desenvolvimento local sustentável.
Nesse processo, as
tecnologias contemporâneas desempenham papel fundamental, uma vez que elas
potencializam um desenvolvimento que seria lento sem a concorrência dessas
tecnologias. Isso significa que desenvolver não implica necessariamente apoio
tecnológico, mas que este imprime aceleração ao desenvolvimento. Sendo assim, o
celular, em sua versão mais atual (sustentável) - carregável com energia solar
e itens reaproveitáveis - disporia de funções capazes de promover a integração
entre sujeitos, com vistas ao desenvolvimento do homem em todas as suas
dimensões e do ambiente onde ele está inserido. Em Palmas/TO, por exemplo, esse
formato já vem sendo trabalhado no Assentamento Coqueirinho[4], como
um projeto piloto, que envolve instituições públicas e privadas, responsáveis
por políticas voltadas ao agricultor familiar. Essa experiência será
apresentada em minha tese de doutoramento, no formato de estudo de caso,
oportunidade em que será tratada como uma prática inovadora aplicada ao
desenvolvimento local sustentável.
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[1] Doutorando
em Ciência, Inovação e Tecnologia em Agropecuária - Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro/UFRRJ. Mestre em Geografia - Universidade Federal do Mato
Grosso do Sul/UFMS. Graduado em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo –
Universidade do Estado do Tocantins/UNITINS.
[2]
Pós-doutor em Administração Pública - EBAPE/FGV, 2011, Doutor em Economia
Aplicada pela Université Paris III (Sorbonne Nouvelle), 1999, Mestre em Planejamento
Energético pela COPPE/UFRJ, DEA pela Université de Grenoble II. Professor
Adjunto do Departamento de Economia do Instituto de Ciências Humanas e Sociais
- ICHS, Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial
e Políticas Públicas- PPGDT e do Doutorado em Ciência, Tecnologia e Inovação em
Agropecuária - PPGCTIA da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ.
[3] Pitts, C. (ed.), M. Kerr, R. Janda, & C. Pitts (2009).
Corporate Social Responsibility: A Legal Analysis (Toronto: LexisNexis).
[4]
Criado em 1993, há 7 km do Plano Diretor de Palmas, na microbacia do Córrego Taquaruçu, a
partir da compra da fazenda Coqueirinho, pelo Governo do Tocantins. O
processo de ocupação obedeceu a uma dinâmica, por meio da qual foram distribuídas
173 chácaras com tamanho definido em 1 (um) alqueire, equivalente a 4,84 ha.
Nessas glebas, assentaram-se as famílias cadastradas. Deu-se início, assim, ao
primeiro assentamento rural das proximidades de Palmas, com os objetivos de: 1)
ocupar as áreas adjacentes ao perímetro urbano e 2) fomentar o crescimento e
desenvolvimento rural no entorno da Capital.
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