A educação de castigo.
A culpa por ser pobre e não ter estudado é
totalmente sua
Leonardo Sakamoto
18/07/2014 08:22
A culpa por você ser pobre é
totalmente sua.
A frase acima raramente traduz a
verdade. Mas é o que muita gente quer que você acredite.
Aí a gente liga a TV de manhã para
acompanhar os telejornais por conta do ofício e já se depara com histórias
inspiradoras de pessoas que não ficaram esperando o Maná cair do céu e foram à
luta. Pois a educação é a saída, o que concordo. E está ao alcance de todos – o
que é uma besteira. E as cotas por cor de pele, que foram fundamentais para o
personagem retratado na reportagem alcançar seu espaço e mudar sua história,
nem bem são citadas.
Pra quê? No Brasil, não temos
racismo, não é mesmo? Até porque o negro não existe. É uma construção social…
Quando resgato a história do
Joãozinho, os meus leitores doutrinados para acreditar em tudo o que vêem na TV
ficam loucos. Joãozinho, aquele self-made man, que é o exemplo de que
professores e alunos podem vencer e, com esforço individual, apesar de toda
adversidade, “ser alguém na vida”.
(Sobe música triste ao fundo ao som
de violinos.)
Joãozinho comia biscoitos de lama com
insetos, tomava banho em rios fétidos e vendia ossos de zebu para sobreviver.
Quando pequeno, brincava de esconde-esconde nas carcaças de zebus mortos por
falta de brinquedos. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe
ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (contando com a ajuda de um
mecenas da iniciativa privada, que lhe ensinou a fazer lápis a partir de carvão
das árvores queimadas da Amazônia), andando 73,5 quilômetros todos os dias para
pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é
presidente de uma multinacional.
(Violinos são substituídos por
orquestra em êxtase.)
Ao ouvir um caso assim, não dá
vontade de cantar: Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooooooor?
Já participei de comissões julgadoras
de prêmios de jornalismo e posso dizer que esse tipo de história faz a alegria de
muitos jurados. Afinal, esse é o brasileiro que muitos querem. Ou, melhor: é
como muitos querem que seja o brasileiro.
Enfim, a moral da história é:
“Se não consegue ser como Joãozinho e
vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade, com
professores bem capacitados, remunerados e respeitados, e de um contexto social
e econômico que te dê tranquilidade para estudar, você é um verme nojento que
merece nosso desprezo. A propósito, morra!''
Uma vez, recebi reclamações da turma
ligada a ações como “Amigos do Joãozinho”. Sabe, o pessoal cheio de boa vontade
genuína e sincera, mas que acredita que o problema da escola é que falta gente
para pintar as paredes. Um deles me disse que acreditava na “força interior''
de cada um para superar as suas adversidades. E que histórias de superação são
exemplos a serem seguidos.
Críticas anotadas e encaminhadas ao
bispo, que me lembrou de que eu iria para o inferno – se o inferno existisse, é
claro.
O Brasil está conseguindo
universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não está vindo acompanhado de
um aumento rápido na qualidade da educação. Mesmo que os dados para a evolução
dos primeiros anos de estudo estejam além do que o governo esperava no Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), grande parte dos jovens de
escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e
reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos.
Enquanto isso, o magistério no Brasil
continua sendo tratado como profissão de segunda categoria. Todo mundo adora
arrotar que professor precisa ser reconhecido, mas adora chamar de vagabundo
quando eles entram em greve para garantir esse direito.
Ai, como eu detesto aquele
papinho-aranha de que é possível uma boa educação com poucos recursos, usando
apenas a imaginação. Aulas tipo MacGyver, sabe? “Agora eu pego essa ripa de
madeira de demolição, junto com esses potinhos de Yakult usados, coloco esses
dois pregadores de roupa, mais essa corda de sisal… Pronto! Eis um laboratório
para o ensino de química para o ensino médio!''
É possível ter boas aula sem
estrutura? Claro. Há professores que viajam o mundo com seus alunos embaixo da
copa de uma mangueira, com uma lousa e pouco giz. Por vezes, isso faz parte do
processo pedagógico. Em outras, contudo, é o que foi possível. Nesse caso,
transformar o jeitinho provisório em padrão consolidado é o ó do borogodó.
Pois, como sempre é bom lembrar, quem
gosta da estética da miséria é intelectual, porque são preferíveis escolas que
contem com um mínimo de estrutura. Para conectar o aluno ao conhecimento. Para
guiá-lo além dos limites de sua comunidade.
“Ah, mas Sakamoto, seu chato! Eu
achei linda a história da Ritinha, do Povoado To Decastigo, que passa a
madrugada encadernando sacos de papel de pão e apontando lascas de carvão, que
servirão de lápis, para seus alunos da manhã seguinte. Ela sozinha dá aula para
176 pessoas de uma vez só, do primeiro ao nono ano, e perdeu peso porque passa
seu almoço para o Joãozinho, um dos alunos mais necessitados. Ritinha, deu um
depoimento emocionante ao Globo Repórter, dia desses, dizendo que, apesar da
parca luz de candeeiro de óleo de rato estar acabando com sua visão, ela
romperá quantas madrugadas for necessário porque acredita que cada um deve
fazer sua parte.''
Ritinha simboliza a construção de um
discurso que joga nas costas do professor a responsabilidade pelo sucesso ou o
fracasso das políticas públicas de educação. Esqueçam o desvio do orçamento da
educação para pagamento de juros da dívida, esqueçam a incapacidade
administrativa e gerencial, o sucateamento e a falta de formação dos
profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e planos de carreira
risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda
decente, de segurança para se trabalhar. Esqueçam o fato de que 10% do PIB para
a educação estar longe de sair do papel.
Joãozinho e Ritinha são alfa e ômega,
os responsáveis por tudo. Pois, como todos sabemos, o Estado não deveria ter
responsabilidade pela qualidade de vida dos cidadãos.
Vocês acham sinceramente que “a
pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou''?
Acreditam que basta trabalhar e
estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de
qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço?
E que todas as pessoas ricas e de
posses conquistaram o que têm de forma honesta?
Acham que todas as leis foram criadas
para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação?
Não se perguntam quem fez as leis, o
porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica?
Sabem de naaaaada, inocentes!
Como já disse aqui, uma das
principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e
contestadoras que podem colocar em risco a própria estrutura política e
econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode
significar libertar ou enquadrar – inclusive libertar para subverter.
Que tipo de educação estamos
oferecendo?
Que tipo de educação precisamos ter?
Uma educação de baixa qualidade,
insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas
profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um
povo?
O Joãozinho e a Ritinha acham que
sim. Mas eu duvido.
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