A Nave dos Divergentes: O Sujeito entre o Vazio do Ateísmo e o Grito dos Dogmas [Nota aos passageiros: Este ensaio abdica das amarras da pontuação tradicional em homenagem à fluidez de José Saramago. Aqui, o ritmo é o seu próprio fôlego e a leitura, um convite ao fluxo da subjetividade que se nega ao ponto final... e corre o risco de continuar.] Vivemos um tempo de placas tectônicas empíricas ou aristotélicas disformes se chocando entre o sagrado e o profano e de um lado a partir de 2020 o Tratado de Ateologia de Michel Onfray e Os Delírios de Dawkins de Richard Dawkins começam a gravitar em bibliotecas mentais da sociedade europeia e dão início a voos mais longos atravessando o oceano e já fazendo pouso em terras americanas trazendo da Europa um deserto de sentido onde a razão é a única bússola e o céu é um teto vazio e acreditem ou não abanados pelos ramos das palmeiras tropicais no Brasil já se faz sentir pelos arautos evangélicos brasileiros em polvorosa pelos gritos nos altares qu...
Você pode até jogar uma pedra em um avião. Se ele estiver parado no aeroporto, é possível acertá-lo. Mas se estiver voando, não há pedra que o alcance. Essa imagem simples diz algo importante sobre a vida humana. Quando estamos parados — presos às mesmas queixas, aos mesmos conflitos, às mesmas repetições — tornamo-nos alvos fáceis. Alvos de críticas, de frustrações, de ressentimentos e, muitas vezes, das próprias pedras que nós mesmos arremessamos contra os outros. E também é muito fácil ocupar o lugar da vítima. A vida cotidiana está cheia dessa dinâmica: pessoas atirando pedras umas nas outras e, ao mesmo tempo, reclamando das pedradas que recebem. Em muitos momentos, até mesmo o discurso psicológico e psicanalítico corre o risco de permanecer apenas nesse território da lamentação. Fala-se de sofrimento, de sintomas, de recalques, de conflitos do inconsciente. Utilizam-se conceitos importantes — como inconsciente, ego e superego — formulados por Sigmund Freud para compre...
Existem momentos na vida em que percebemos que certas escolhas não podem ser feitas por nós nem por ninguém. Durante muito tempo acreditamos que alguém nos levaria para um novo cenário, conduzindo o barco da nossa própria existência. Mas chega uma hora em que descobrimos algo diferente: não é bem assim. Muitas vezes deixamos o melhor no barco do outro e reclamamos para sempre. Há muito tempo se conta que as almas atravessavam o rio Aqueronte conduzidas pelo barqueiro Caronte. Era ele quem fazia a travessia. As almas apenas embarcavam. O rio era inevitável. A travessia também. E havia apenas um barco naquela imensidão. Só de imaginar já causa um certo arrepio. Essa metáfora, saída da mitologia grega, revela algo profundo sobre a condição humana: diante de certos rios da vida, acreditamos que alguém virá nos conduzir até a outra margem. Mas podemos imaginar outra cena. Deixemos de lado apenas o mergulho na história antiga e imergimos agora em nossa própria história . No mesmo rio surge a...
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