Você pode até jogar uma pedra em um avião. Se ele estiver parado no aeroporto, é possível acertá-lo. Mas se estiver voando, não há pedra que o alcance. Essa imagem simples diz algo importante sobre a vida humana. Quando estamos parados — presos às mesmas queixas, aos mesmos conflitos, às mesmas repetições — tornamo-nos alvos fáceis. Alvos de críticas, de frustrações, de ressentimentos e, muitas vezes, das próprias pedras que nós mesmos arremessamos contra os outros. E também é muito fácil ocupar o lugar da vítima. A vida cotidiana está cheia dessa dinâmica: pessoas atirando pedras umas nas outras e, ao mesmo tempo, reclamando das pedradas que recebem. Em muitos momentos, até mesmo o discurso psicológico e psicanalítico corre o risco de permanecer apenas nesse território da lamentação. Fala-se de sofrimento, de sintomas, de recalques, de conflitos do inconsciente. Utilizam-se conceitos importantes — como inconsciente, ego e superego — formulados por Sigmund Freud para compre...
Existem momentos na vida em que percebemos que certas escolhas não podem ser feitas por nós nem por ninguém. Durante muito tempo acreditamos que alguém nos levaria para um novo cenário, conduzindo o barco da nossa própria existência. Mas chega uma hora em que descobrimos algo diferente: não é bem assim. Muitas vezes deixamos o melhor no barco do outro e reclamamos para sempre. Há muito tempo se conta que as almas atravessavam o rio Aqueronte conduzidas pelo barqueiro Caronte. Era ele quem fazia a travessia. As almas apenas embarcavam. O rio era inevitável. A travessia também. E havia apenas um barco naquela imensidão. Só de imaginar já causa um certo arrepio. Essa metáfora, saída da mitologia grega, revela algo profundo sobre a condição humana: diante de certos rios da vida, acreditamos que alguém virá nos conduzir até a outra margem. Mas podemos imaginar outra cena. Deixemos de lado apenas o mergulho na história antiga e imergimos agora em nossa própria história . No mesmo rio surge a...
Dois corredores. Um vem em velocidade, carregando algo que não pode parar. O outro já está em movimento — não espera parado. Eles não se olham por muito tempo. Não há explicação. Não há conversa. Só um gesto em preparação. O bastão se aproxima. O tempo encurta. Tudo acontece em segundos. O bastão não pode cair. Mas também não pode ser retido. Existe um ponto exato em que ele deixa de ser de um e ainda não é do outro. É nesse intervalo que tudo se decide. A mão que vem não pode hesitar. A mão que recebe não pode duvidar. Porque ninguém corre pelo outro. E ninguém pode receber por você. Se o gesto falha, não há corrida. Se o gesto acontece, algo continua — mas em outro corpo. A vida opera assim. Há coisas que chegam até você — histórias, marcas, repetições. Elas vêm em movimento. Você não escolhe que venham. Mas há um ponto em que algo se decide: o que você faz quando isso chega. Recusar não interrompe. Só desloca a repetição. Segurar como antes também não resolve. Só prolonga. Ma...
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