Como não fazer extensão rural a partir das hortas escolares
Como não fazer extensão rural a partir das hortas escolares.
Essa é mais uma das
historias que acontece comigo. Tem coisas que só acontece com o Botafogo. Mas esta historia também é
interessante. Começa com um órgão público, no Brasil, convidando outro órgão
público para que, na Semana da Ciência e Tecnologia, de 2012, dispusesse de alguém, pertencente ao seu quadro de
funcionários, para comparecer a uma escola rural e falar sobre agroecologia.
Não foi um convite qualquer. Bem, na falta de quem se interessasse, entre o
teto e o chão da instituição, o convite chegou, gentilmente comunicado, a mim, ilustre
doutor desconhecido pela instituição, em Ciência, Tecnologia e Inovação em
Agropecuária, da região norte, poderia ser em qualquer região, só mudaria o
endereço, como uma forma de atender à instituição proponente. Daí a aceitar foi
uma enxadada rural, porque não resisto a convites bem elaborados, pois sou
deveras sentimental. E assim se inicia este relato, assaz interessante, não
pela forma como foi construído, mas sim pelo seu desaguar, silencioso e
perverso, na foz do descomprometimento das políticas públicas e no delta
pernicioso do desinteresse do funcionalismo pela gestão de assistência técnica
e extensão rural. Considerando que valorizo,
por demais, a prática da horticultura em escolas públicas, de forma
interdisciplinar, como penso também que a saída para a agricultura familiar
neste país está na agroecologia e na produção orgânico, nada mais lógico que se
inicie pelo ensino fundamental a dar os primeiros passos, buscando, daqui a
alguns anos, os frutos para outra realidade. Eu acredito – dizia a faixa de uma
torcida em final de Libertadores. E
antes que o agronegócio apareça. Deixemos o agronegócio para quem pode encher a
tuia. Os protagonistas deste relato,
professores do ensino fundamental com capacidade, competência e habilidades
para aproximar crianças à natureza e aos plantios, cultivos, produção e preparo
dos alimentos ali obtidos, bem que poderiam, nesta escola, ir além das
cartilhas convencionais e se tornarem agentes multiplicadores de
interdisciplinaridades e conhecedores das lidas rurais e, assim, as propagar. Mas,
não foram. Quem, como eu, que lida com ruralidades, sabe que a iniciação da
produção de alimentos, fibras e, hoje, energia, muitas vezes, começa com o
plantio de uma horta, como complemento alimentar insubstituível e tem expertise para recomendar que tais
iniciativas se multipliquem ao infinito objetivando uma Terra melhor. Desde
2001, esta companhia ideológica insiste em ficar comigo. Pode ser que esta
instituição não saiba, e talvez, por um erro de capacitação, treinamento,
qualificação seu quadro funcional desconheça o valor de tais dedicações em presentes
e futuros eventualmente carentes. Com um roteiro “experimentado” nas minhas
andanças por aqui e por fora do Brasil, justificando que tais iniciativas podem
e devem se reproduzir, mostrando caminhos e obstáculos, e sabendo que é
possível esta construção, penso nos programas federais a distribuir recursos
para este fim. Bem imaginado. Tai, a fome a nos espreitar, reza a cartilha globalizada.
E para nossa felicidade, e olhe que não precisa criar este ministério, como na
nossa vizinha Venezuela, há tempos, tem-se espalhado o conceito de agroecologia
- produzir alimentos a partir do recurso que já está na natureza. Da mesma
forma, organizações não governamentais e algumas empresas da iniciativa privada
acordaram para um papel além da obtenção de lucros e geração de empregos: a
melhoria da humanidade como fator indiscutível da responsabilidade social e
ambiental. Bem, voltando ao convite, logo que abracei a ideia veio a vontade de
integrar projetos sociais interdisciplinares que levassem às crianças, um norte
diferente daquilo tudo que eles estavam acostumados a ter no seu dia a dia, com
a apropriação e o bom uso de novas ferramentas tecnológicas para trabalhar
horta nesta escola. Lembrei de uma fala do educador agroecológico, via blog de
Rui Daher, Bruno Helvécio (“Horta Escolar – uma sala de aula ao ar livre”, Sociedade Ecológica Amigos do Embu, 2013, Livraria Nobel Granja Viana), que nos
alerta para outros fatores associados a uma simples horta escolar: “A
horta dentro de uma instituição de educação possibilita o contato com a terra e
os pequenos seres que habitam nela (…). Além disso, possibilita a valorização e
resgate dos saberes de algumas pessoas mais antigas da família. Saberes esses
esquecidos ou desvalorizados”. E nos ensina: “Aprender a respeitar o tempo da
terra”. Imaginei que muitos agrônomos e técnicos agrícolas poderiam enlaçar
esta causa. Ai,começa a saga. Em estando na escola, em vez de me apresentarem
uma turma adolescente, me ofereceram pré-adolescentes. E assim me tornei,
momentaneamente, animador de auditório. Ainda bem que tinha muitos torcedores
do Flamengo. Porém, como mineiro não
perde o trem da viagem, levei na bagagem alguns vídeos sobre produtos orgânicos
e agroecológicos. Não são a mesma coisa. Acertei no milhar. A garotada se
entusiasmou e os professores também. Queriam sementes, mudas, adubo e um
técnico ou engenheiro que iniciasse os primeiros passos, sabe porque? Porque a merenda tava fraca e naquele momento,
vislumbraram o futuro. Coisa que o governo não vê, ou finge que não vê. Fiquei
indignado com tal situação, tomei frente tal qual um herói da liga da justiça e
disse: “Deixa comigo”. E voltei para a instituição. Comuniquei o fato a turma
do andar de cima, pois lá tem uma porção de instruídos que embora não o sejam, "seacharam" no poder de decidir quem deve
fazer o que. Alguém foi à esta escola? A escola está lá, os alunos também, mas
o Estado não está, não como indutor de práticas agrícolas sustentáveis.
Agora
vem a reflexão: quanto de dinheiro público pode ser economizado, reduzido, diminuído
com as custas da assistência técnica e extensão rural no Brasil, caso tenhamos
hortas escolares?
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