📖 O mar aberto: Uma metáfora sobre as transições da vida (Capítulo 4)
O ônibus anda.
Sem pressa.
Sem explicação.
Sento na janela.
Olho pra fora.
A rodoviária já ficou pra trás.
— Pronto… — digo — agora foi.
Silêncio.
Jacques Lacan aparece no banco ao lado:
— Foi… o quê?
— Eu saí.
— Sair não é chegar.
Respiro fundo.
Não gosto dessa resposta.
— Mas já é alguma coisa, né?
Sigmund Freud, algumas fileiras atrás:
— É um começo.
— Então agora melhora?
Ele não responde.
A estrada é longa.
Monótona.
Sem novidade.
— Estranho… — digo — achei que ia ser diferente.
Byung-Chul Han responde, olhando pela
janela:
— Você mudou de lugar. Não de estrutura.
Isso pesa.
— Então quer dizer que nada mudou?
Christian Dunker entra:
— Mudou. Você não está mais no mesmo ponto.
— Mas parece igual.
— Parece… porque você veio junto.
Silêncio.
Uma mulher no banco da frente suspira:
— Eu já fiz isso antes… sair, mudar, tentar… e volto pro mesmo lugar.
Maria Rita Kehl responde:
— Volta pro lugar… ou volta pra mesma posição?
A mulher não responde.
Olho pra minha mão.
Ela segura o banco com mais força do que precisa.
— E se eu estiver indo pro mesmo lugar de novo? — pergunto.
Friedrich Nietzsche responde sem olhar:
— Você sempre está.
— Então não adianta?
— Adianta… se você não for o mesmo.
Isso complica.
— Tá… mas e se eu cansar?
Donald Winnicott fala baixo:
— Vai cansar.
— E aí?
— A questão não é evitar o cansaço. É o que você faz com ele.
O ônibus segue.
Mesma estrada.
Mesmo ritmo.
— Sinceramente? — digo — dá vontade de voltar.
Silêncio.
Ninguém julga.
Andrea Vermont aparece no corredor:
— Claro que dá.
— Então voltar não é errado?
— Não.
— Então por que não voltar logo?
Ela encosta no banco:
— Porque agora você sabe.
Isso trava.
— Saber pesa, né?
Byung-Chul Han responde:
— Saber tira o conforto da ignorância.
— Antes era mais fácil…
Freud completa:
— Era mais automático.
— E agora?
Lacan:
— Agora é escolha.
Olho pela janela.
A estrada continua.
Sem fim à vista.
— E se eu escolher errado?
Nietzsche responde:
— Você já escolheu ficar tempo demais.
Respiro fundo.
— Então deixa eu ver se entendi… — digo — não tem garantia… não tem certeza…
não tem certeza de nada?
Christian Dunker responde:
— Tem uma.
— Qual?
— Você não é mais o mesmo que não sabia.
Silêncio.
O ônibus desacelera um pouco.
Depois continua.
— Então é isso o tal do mar aberto? — pergunto.
Andrea Vermont responde:
— É onde não tem mais desculpa pronta.
Encosto a cabeça na janela.
Fecho os olhos por um instante.
Nada se resolveu.
Nada ficou mais fácil.
Mas uma coisa é clara.
Eu não estou mais parado
Você quer voltar porque está difícil…
ou porque, pela primeira vez, não dá mais pra fingir que não sabe?
E pra saber mais só lendo o Capitulo 5 _ As tempeestades
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