Manifesto do Princípio da Sua Parte
Durante muito tempo, o sofrimento foi explicado. Nomeado.
Organizado. Justificado. E quanto mais se explicava, mais a vida permanecia no
mesmo lugar. Porque explicação não atravessa. No máximo, contorna. Existe um
ponto — preciso, quase imperceptível —
em que compreender deixa de ser movimento e passa a ser adiamento.
É aí que tudo se decide. Não no que te aconteceu. Mas no que você faz com
isso. É aqui que surge o Princípio da Sua Parte: não como ideia, não como
conselho, mas como corte. Enquanto a sua parte não é assumida, o outro te
prende. Mesmo ausente. Mesmo em silêncio. Mesmo no passado.
Tudo gira em torno dele. Tudo retorna ao mesmo lugar. Mas quando a sua parte é assumida, a
lgo se desfaz. Não no mundo. Mas na amarra. E, de repente, há espaço. Espaço entre você e o que te atravessa. Espaço entre você e o outro. Espaço para que algo não precise se repetir.
É nesse intervalo que a vida reaparece, Não como solução. Mas como
possibilidade. E talvez seja aí — nesse ponto exato, quase invisível — que algo
como um paraíso se insinua. Não como destino. Mas como passagem.
Um instante em que o peso muda de mãos. Em que a história deixa de te
carregar e passa a ser carregada por você. Como numa corrida: ninguém pode
correr por você.
Mas há um momento em que o bastão chega. E tudo depende de como você o recebe.
Se recusa, repete. Se assume, atravessa. E é nesse atravessamento
que algo finalmente começa. A análise pode te levar até esse ponto. Mas há algo
que ela não pode fazer: estender a mão no seu lugar.
https://josecarlosdemiranda.blogspot.com/2026/03/o-que-e-psicanalise-da-mudanca.html

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