📖 CAPÍTULO 2 A encruzilhada _O Peso do "Não": O que Acontece com os Caminhos que Você Abandonou?

 

Rodoviária.

Barulho de mala arrastando.
Gente com pressa de ir.
Gente com pressa de chegar.

Sento.

Olho o painel.

Vários destinos.

— Engraçado… — digo — todo mundo sabe pra onde vai.

Sigmund Freud responde, sem levantar os olhos:

— Sabe o nome do destino. Não o caminho que repete.

— Lá vem… — suspiro — então ninguém muda?

Jacques Lacan corta:

— Mudar não é trocar de lugar.

— Então é o quê?

— Mudar é mudar de posição.


Um homem ao lado reclama alto:

— Sempre a mesma coisa… atraso, bagunça… nada funciona.

Christian Dunker, alguns bancos à frente, comenta:

— Às vezes muda tudo… menos quem reclama.

O homem se vira, irritado:

— Tá dizendo que a culpa é minha?

Maria Rita Kehl responde, tranquila:

— Não é culpa. É participação.

— Participação em quê? — ele insiste.

Friedrich Nietzsche, encostado na parede, sorri de lado:

— Em continuar exatamente onde diz que não quer estar.

Silêncio curto.


— Tá… — entro na conversa — então ninguém escapa disso?

Donald Winnicott fala baixo:

— Escapa quando começa a agir de verdade. Não quando entende.


Não gosto muito dessa direção.

— Então quer dizer que entender não serve pra nada?

Byung-Chul Han responde:

— Serve para explicar. E explicar pode virar esconderijo.


Isso trava um pouco.


Uma mulher fecha um caderno e entra na conversa.

— Vocês ainda estão explicando demais.

Olho pra ela.

— E você faria diferente?

Ela cruza as pernas:

— Eu faria mais simples.

— Como?

— Pararia de tirar você da história.

— E quem é você pra falar isso?

Ela responde sem se mexer:

Andrea Vermont.

— Nunca ouvi falar.

— Não faz diferença. — ela diz. — Você também nunca se ouviu direito.


Isso pega.


— Tá… então vamos direto — digo — se não é o outro… se não é a situação… então sobra o quê?

Freud:

— Você.

— Eu o quê?

Lacan:

— A sua posição.


— Mas e se não for minha parte? — retruco — e se for o outro mesmo?

Lacan responde na hora:

— Essa é a pergunta que mantém tudo igual.


O homem que reclamava antes balança a cabeça:

— Então pronto. Agora tudo é culpa da gente?

Andrea olha pra ele:

— Não. Mas continuar assim… já é escolha.


O alto-falante anuncia um embarque.

Gente levanta.

Nomes de cidades passam rápido.


— Deixa eu entender… — digo, mais baixo agora — mesmo sem perceber… eu tô participando disso?

Freud:

— Principalmente assim.


Olho minhas mãos.

Vazias.

Sem passagem.


— E se eu não fizer nada?

Han responde:

— Já está fazendo.


Silêncio.


Andrea fecha o caderno de vez:

— Você quer uma resposta… ou quer sair do lugar?


Não respondo.

Porque, pela primeira vez,

não parece que falta resposta.


A pergunta vem.

Sem esforço.

Sem defesa.


— Qual é a minha parte nisso?


Ninguém responde.

E, dessa vez, não é vazio.

É espaço.

Você quer um destino diferente…
ou só um nome novo para o mesmo caminho? Talvez não seja apenas a continuação da estrada.

Mas de nada adianta olhar para outro lado.

É o deslocamento que, inevitavelmente, reposiciona.

➡️ Continue: Capítulo 3 — O embarque

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