📖 Vida que segue
O ônibus desacelera.
Sem anúncio.
Sem cerimônia.
Olho pela janela.
Nada espetacular.
Nenhuma paisagem grandiosa.
Só chão.
— Chegamos? — pergunto.
Silêncio.
Levanto.
O corpo mais leve.
Não porque ficou fácil.
Mas porque não estou mais lutando com o mesmo peso.
A porta abre.
Desço.
Pé no chão.
Firme.
Simples.
Olho pra trás.
O ônibus ainda está lá.
— Vocês vêm? — pergunto.
Nenhuma resposta.
Subo um degrau de novo.
Olho pra dentro.
Ninguém.
Nem Sigmund Freud.
Nem Jacques Lacan.
Nem Byung-Chul Han.
Nem Andrea Vermont.
Nenhum deles.
O ônibus está vazio.
Desço devagar.
A porta fecha.
E ele parte.
Fico parado.
— Então era isso? — digo, quase rindo — uma conversa inteira… comigo?
O vento bate leve.
Sem resposta.
Mas algo é claro.
Eles não foram embora.
Nunca estiveram ali.
Freud…
era quando eu parava de fugir da repetição.
Lacan…
quando eu começava a escutar o que digo sem perceber.
Han…
quando eu parava de usar o cansaço como desculpa.
Andrea…
quando eu parava de me tirar da própria história.
Não eram pessoas.
Eram momentos.
Olho o caminho à frente.
Sem placa.
Sem direção definida.
— E agora?
Silêncio.
Mas, dessa vez,
não é vazio.
É escolha.
Respiro.
E dou um passo.
Sem plateia.
Sem confirmação.
Sem garantia.
Mas com algo que não tinha antes.
Posição.
Agora que você descobriu que era só você conversando consigo mesmo, qual é o primeiro passo que vais dar sem permissão do outro?
Porque o livro termina aqui, mas, sua vida continua. E você percebeu que tudo muda quando a sua parte não pode mais ser evitada.
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