📖 CAPÍTULO 5 - As tempestades
O céu muda sem avisar.
Não escurece de repente.
Só vai perdendo cor.
O ônibus segue.
Mas agora balança.
— Isso não tava no plano… — digo.
Sigmund Freud responde:
— Nunca esteve.
Uma freada leve.
Um ruído estranho.
Gente se ajeitando no banco.
— Eu sabia… — resmungo — sempre acontece alguma coisa.
Jacques Lacan olha de lado:
— Sempre… ou você reconhece quando acontece?
— Ah, agora até isso? — digo — não posso nem reclamar?
Maria Rita Kehl responde:
— Pode. A questão é: isso muda alguma coisa?
O ônibus balança mais forte.
Alguém lá atrás reclama alto.
— Sinceramente… — digo — acho que isso não é pra mim.
Silêncio.
Byung-Chul Han fala baixo:
— O cansaço sempre oferece uma saída.
— Qual?
— Voltar… ou desistir sem dizer que desistiu.
Isso pega.
— E qual o problema de voltar? — retruco — pelo menos lá eu sabia como era.
Christian Dunker responde:
— Sabia… ou suportava?
O ônibus inclina levemente.
Nada grave.
Mas suficiente.
— Eu não pedi por isso… — digo — só queria melhorar.
Donald Winnicott responde:
— Melhorar não é evitar o desconforto.
— Então é o quê?
— É não fugir dele toda vez.
Um trovão distante.
— Tá ficando exagerado… — digo — precisava tudo isso?
Friedrich Nietzsche responde seco:
— Você queria mudança… sem ruptura?
Silêncio.
Olho pela janela.
Chuva começa.
— E se eu não aguentar?
Andrea Vermont se aproxima:
— Aguentar não é o ponto.
— Então qual é?
— Não sair correndo de si mesmo.
Isso pesa mais que o balanço.
— Mas dá medo… — admito.
Ela não suaviza:
— Tem que dar.
O ônibus segue.
Menos estável.
Mas segue.
— E se eu perder o controle?
Sigmund Freud responde:
— Você nunca teve tanto quanto imagina.
— Então eu tô só… indo?
Lacan responde:
— Agora sim.
Um silêncio mais longo.
A chuva aperta.
Depois… começa a aliviar.
— Espera… — digo — tá passando?
Byung-Chul Han responde:
— Sempre passa.
— Então era só isso?
— Nunca é “só”.
O ônibus estabiliza.
O barulho diminui.
Respiro fundo.
— Estranho… — digo — achei que seria pior.
Christian Dunker responde:
— Era o suficiente.
Olho pra frente.
A estrada continua.
Mas tem algo diferente.
Não no caminho.
Em mim.
— Então… — digo, quase em voz baixa — é isso que muda?
Andrea Vermont responde:
— Não.
— Não?
— Isso mostra que você não foge mais.
Silêncio.
E, pela primeira vez,
não sinto vontade de voltar.
Agora que você irá descer do ônibus, que não foge mais de si mesmo,
qual é a primeira coisa que você vai fazer diferente?
E pra finalizar a jornada só pisando em terra firme e olhar para um novo horizonte. Vida que segue.
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