📖 CAPÍTULO 3 _ O embarque - cerque-se de cuidados para chegar leve ao destino.
O aviso soa.
— Embarque imediato.
Ninguém olha pra mim.
Mas parece que foi.
A rodoviária continua a mesma.
Barulho.
Gente.
Movimento.
Mas não é igual.
Seguro a mochila.
Ainda sentado.
— Então é isso… — digo — eu entendi.
Jacques Lacan responde na hora:
— Não.
— Como não?
— Entender não é isso.
— Então o que falta? — pergunto, já meio impaciente.
Sigmund Freud olha por cima dos óculos:
— Falta você.
— Eu já estou aqui.
— Não desse jeito.
Isso irrita.
— Então fala logo o que tem que fazer.
Silêncio.
Andrea Vermont quebra o vazio:
— Ninguém vai te dar essa resposta.
— Claro que vai… — retruco — vocês sabem.
Ela balança a cabeça:
— Saber não faz por você.
O aviso soa de novo.
Mais urgente.
Um motorista grita:
— Última chamada!
Algumas pessoas correm.
Outras fingem que não ouviram.
— E se eu não entrar? — pergunto.
Byung-Chul Han responde:
— Você já sabe o que acontece.
— O quê?
— Nada.
Isso pesa mais do que deveria.
— Mas e se eu entrar errado? — insisto — e se não for esse o caminho?
Donald Winnicott fala baixo:
— O gesto verdadeiro nunca é errado.
— Mesmo sem certeza?
— Principalmente assim.
Olho pro ônibus.
Porta aberta.
Motor ligado.
— Eu ainda não tenho certeza… — digo.
Friedrich Nietzsche responde, seco:
— Quem espera certeza… já decidiu não sair.
Silêncio.
O homem que reclamava antes passa por mim.
Entra no ônibus.
Sem olhar pra trás.
— Então é isso? — pergunto — só levantar e ir?
Lacan:
— Não é “só”.
Freud:
— É “isso”.
Andrea me olha direto:
— Você pode continuar pensando…
— ou pode começar.
Respiro fundo.
Levanto.
Não com coragem.
Com incômodo.
Dou um passo.
E algo estranho acontece.
Nada muda.
E, ao mesmo tempo,
tudo muda.
— E agora? — digo, já de pé.
Han responde:
— Agora você não pode mais dizer que não sabia.
Subo o primeiro degrau.
Paro.
Olho pra trás.
Eles continuam lá.
Sentados.
Como se nunca tivessem saído.
— Vocês não vêm?
Freud sorri de leve:
— Nós sempre estivemos aqui.
Lacan completa:
— Quem se move agora é você.
Andrea fecha o caderno:
— Boa viagem.
Entro.
A porta fecha.
Não sei pra onde vai.
Não sei quanto tempo dura.
Não sei se é o certo.
Mas sei de uma coisa.
Dessa vez,
eu não fiquei.
Você está esperando ter certeza…
ou já percebeu que é o passo que cria o caminho? Siga em frente e descubra um belo horizonte no Capitulo 4 - Mar aberto
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