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📖 CAPÍTULO 5 - As tempestades

       O céu muda sem avisar. Não escurece de repente. Só vai perdendo cor. O ônibus segue. Mas agora balança. — Isso não tava no plano… — digo. Sigmund Freud responde: — Nunca esteve. Uma freada leve. Um ruído estranho. Gente se ajeitando no banco. — Eu sabia… — resmungo — sempre acontece alguma coisa. Jacques Lacan olha de lado: — Sempre… ou você reconhece quando acontece? — Ah, agora até isso? — digo — não posso nem reclamar? Maria Rita Kehl responde: — Pode. A questão é: isso muda alguma coisa? O ônibus balança mais forte. Alguém lá atrás reclama alto. — Sinceramente… — digo — acho que isso não é pra mim. Silêncio. Byung-Chul Han fala baixo: — O cansaço sempre oferece uma saída. — Qual? — Voltar… ou desistir sem dizer que desistiu. Isso pega. — E qual o problema de voltar? — retruco — pelo menos lá eu sabia como era. Christian Dunker responde: ...

📖 O mar aberto: Uma metáfora sobre as transições da vida (Capítulo 4)

O ônibus anda. Sem pressa. Sem explicação. Sento na janela. Olho pra fora. A rodoviária já ficou pra trás. — Pronto… — digo — agora foi. Silêncio. Jacques Lacan aparece no banco ao lado: — Foi… o quê? — Eu saí. — Sair não é chegar. Respiro fundo. Não gosto dessa resposta. — Mas já é alguma coisa, né? Sigmund Freud , algumas fileiras atrás: — É um começo. — Então agora melhora? Ele não responde. A estrada é longa. Monótona. Sem novidade. — Estranho… — digo — achei que ia ser diferente. Byung-Chul Han responde, olhando pela janela: — Você mudou de lugar. Não de estrutura. Isso pesa. — Então quer dizer que nada mudou? Christian Dunker entra: — Mudou. Você não está mais no mesmo ponto. — Mas parece igual. — Parece… porque você veio junto. Silêncio. Uma mulher no banco da frente suspira: — Eu já fiz isso antes… sair, mudar, tentar… e volto pro mesmo lugar. ...

📖 CAPÍTULO 3 _ O embarque - cerque-se de cuidados para chegar leve ao destino.

    O aviso soa. — Embarque imediato. Ninguém olha pra mim. Mas parece que foi. A rodoviária continua a mesma. Barulho. Gente. Movimento. Mas não é igual. Seguro a mochila. Ainda sentado. — Então é isso… — digo — eu entendi. Jacques Lacan responde na hora: — Não. — Como não? — Entender não é isso. — Então o que falta? — pergunto, já meio impaciente. Sigmund Freud olha por cima dos óculos: — Falta você. — Eu já estou aqui. — Não desse jeito. Isso irrita. — Então fala logo o que tem que fazer. Silêncio. Andrea Vermont quebra o vazio: — Ninguém vai te dar essa resposta. — Claro que vai… — retruco — vocês sabem. Ela balança a cabeça: — Saber não faz por você. O aviso soa de novo. Mais urgente. Um motorista grita: — Última chamada! Algumas pessoas correm. Outras fingem que não ouviram. — E se eu não entrar? — pergunto. Byung-Chul Han responde: — Você já sabe o...

📖 CAPÍTULO 2 A encruzilhada _O Peso do "Não": O que Acontece com os Caminhos que Você Abandonou?

  Rodoviária. Barulho de mala arrastando. Gente com pressa de ir. Gente com pressa de chegar. Sento. Olho o painel. Vários destinos. — Engraçado… — digo — todo mundo sabe pra onde vai. Sigmund Freud responde, sem levantar os olhos: — Sabe o nome do destino. Não o caminho que repete. — Lá vem… — suspiro — então ninguém muda? Jacques Lacan corta: — Mudar não é trocar de lugar. — Então é o quê? — Mudar é mudar de posição. Um homem ao lado reclama alto: — Sempre a mesma coisa… atraso, bagunça… nada funciona. Christian Dunker , alguns bancos à frente, comenta: — Às vezes muda tudo… menos quem reclama. O homem se vira, irritado: — Tá dizendo que a culpa é minha? Maria Rita Kehl responde, tranquila: — Não é culpa. É participação. — Participação em quê? — ele insiste. Friedrich Nietzsche , encostado na parede, sorri de lado: — Em continuar exatamente onde diz que não quer estar. Silêncio curto. — Tá… — entro na conversa — e...

📖 CAPÍTULO 1 Naquela mesa, só falta você. _ A Mesa Posta da Existência: Você é Convidado ou Apenas Observador?

  Num fim de tarde, numa loja de conveniência, sentamos para conversar. Café, barulho de geladeira, gente entrando e saindo. Nada de divã. Nada de consultório. Só uma mesa — e alguma coisa que ainda não tinha nome. Olho para Sigmund Freud e digo: — Conheço um sujeito que não se cansa de fazer a mesma coisa. Sempre volta ao mesmo lugar. O que você diz disso? Ele não se apressa. — A repetição não é fraqueza — responde. — É estrutura. Fico em silêncio por um instante. — Então não é falta de força? Ele sorri, como quem já viu aquilo muitas vezes. — Não. É o modo como algo insiste. Jacques Lacan , impaciente, entra na conversa: — E você acha que ele se dá conta disso? Respondo: — Acho que não. Parece automático. Lacan inclina o corpo: — Então não basta explicar. É preciso que ele se implique. Antes que eu responda, Byung-Chul Han observa, em tom baixo: — Hoje tudo é explicado. E quanto mais se explica, menos se move. — Então explicação virou abrigo...

O PRINCÍPIO DA SUA PARTE A Sua Parte no Caos: Qual é a Sua Responsabilidade no que te Acontece?- “Leia este livro — se estiver disposto a sair da mesmice.”

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  🧠 Introdução Este não é um livro para distração. Também não é para confirmação do que você já pensa. Se você chegou até aqui, há algo que insiste. Algo que se repete. Algo que, de alguma forma, não muda. E não muda porque, em algum ponto, a sua parte ainda não foi assumida. A experiência psicanalítica não se sustenta na explicação, mas no momento em que aquilo que era evitado passa a ser reconhecido como próprio. É nesse ponto que algo se desloca. Não fora. Mas em você. E quando isso acontece, o que antes parecia destino começa a revelar outra coisa: repetição. Este livro não oferece saídas prontas. Mas pode te colocar diante de uma pergunta da qual já não será tão simples escapar: o que, nisso tudo, é da sua parte? A leitura não termina aqui. É justamente agora que começa. ➡️ Leia o Capítulo 1 - Naquela mesa, só falta você

Por que repetimos os mesmos erros na vida?

  Muitas pessoas se perguntam por que, mesmo sabendo o que fazem, continuam repetindo os mesmos erros, escolhas ou padrões de comportamento. Relacionamentos que se repetem, decisões semelhantes, sensações conhecidas — como se algo insistisse em voltar, mesmo quando se deseja mudar. Na psicanálise, isso não é visto como falta de inteligência ou de vontade. Trata-se de um funcionamento mais profundo, ligado à forma como cada sujeito se relaciona com sua própria história. A repetição não é por acaso Repetir não é um acidente. Há algo que se mantém, que retorna, mesmo quando parece não fazer sentido. É como se o sujeito estivesse preso a uma lógica que ainda não foi totalmente reconhecida. Por isso, muitas vezes, entender racionalmente não é suficiente para mudar. O que mantém a repetição? A repetição se sustenta naquilo que não foi elaborado. Enquanto algo não encontra outro lugar na experiência, ele tende a retornar — às vezes de formas diferentes, mas com a mesma estrutu...